Superstição conveniente

meu amor está no mito

o belo me desencanta

do calor do nosso atrito

berro de mim o Egito

e todo credo

que me tranca

 

meu amor está no grito

berço da minha anca

do torpor do nosso rito

levo em mim o minto

e todo riso

que me engana

 

meu amor está no zinco

teto chão da minha cama

do sabor do teu umbigo

abraço o desabrigo

e enterro o céu na minha pança

Grande amor

meu amor não cabe

nem vira cabide

não existe abade

que o delimite

 

nem Marques de Sade

sabe como insiste

meu amor que abre

e invade

como quem decide

pelo o que não sabe

e que não desiste

segue no teu lábio

cego em todo acabe

vivo em todo existe

Escolha

mais um dia passa

e o tempo grande amassa

no instante

a sua pequenez

Sem-fio

em tempos de telefone celular

ninguém liga mais para a casa de ninguém

e prefere a solidão da grana que não tem

pra ficar com o tchau da nova Telemar

Alento

mesmo que não seja hoje

que você leia este presente

o futuro não chega ausente

para quem o coração ouve

 

um, dois anos depois, ouse!

que tempo está sempre na mente

e não há dia que fique doente

que de noite também não repouse

 

qual riso não rima no dente?

quando foi que alguém não pode

cansar de tanto Ocidente

e sair para onde que fosse?

Inversão

chegou a noite

e o medo do corte

faço prazer

de toda sorte

Turista

não se preocupe,

meu amor,

que minha câmera só captura

a parte que não é tua

De tudo que é sólido

das pessoas

tenho o amor que é ar

que é meu e do mundo,

das plantas, dos bichos, e de tudo,

do sol e do mar

 

das pessoas

o que eu tenho nunca é meu

é a reconquista de cada instante,

do amor

que como o ar me invade,

e me corre por todo o corpo

 

num parto volto

        revolto

            envolto de instante

 

num mesmo choro da vida

que é sempre primeiro e último

choro

 

                  berro-choro

         desse ar que me chupa,

me invade, me expulsa, me estupra

meu

          pulmão

       saber sabor

 

de ti tenho apenas o amar

que é amor e ar

e não apenas,

mas possibilidade de te encontrar

e poder ser um convite

ao teu respirar

Traveco

na moda carioca

Deleuze é o Gabeira da filosofia política

e usa tanguinha na praia do arpoador

de noite vai no cone japa, Leblon

janta escondendo a capa

pó de arroz agora é o televisor

batom

na manhã, vai manteiga light no café

filantropia da gordura

com caridade

e com uma havaina no pé

esconde  a botina dura

                        e diz amizade, zap

azarando as menininhas de bundinha empinada

que estudam na católica pontifícia

e que amanhã envelhecem com ou sem missa

e transfimutam-se em grã-finas empanadas

cadavéricas amadas

a bundinha vira narina

empinada, pavimentada ex-bundinha

Oscar Wilde old wild west é galo de rinha

e diz a coca-cola, da higiene, do shampoo,

massa, mesa, missa, medo, milícia, malisa, narina

meio-ambiente higienista

limpeza étnica

ai…

e o Vascão vai descendo devagar

ai, ai, meu coração!

Fight the Power

fight the power, Falstaff!

fight the fast staff

fight, Falstaff, fight!

 

fight the fear

with a funny face

fight the fast

with a fat embrace

 

fight, Fastaff, fight!

fight the fast staff

Prefiro viver

ai, meu pessimismo de análise

não ganhe do meu otimismo de viver!

e se esse pessimismo de viver me hemodiálise

vai canário!

um otimismo na análise eu vou fazer

Ordem do dia

era preciso ser tanta

e o tempo vai

como passa o trem

dinheiro, obrigações,

cachorro e regar as plantas

a vida corre e

tudo isso me detém

 

era preciso ser santa

mas o tempo vai

e o prazer muito convém

no convés do desejo

amor, eu quero nossa manta

e correr com a vida

a liberdade que sou refém

 

o que faz mais um dia

depois de outro dia?

onde está o que eu quero?

se morrer, então, não adianta

vai e me encanta

que eu vou também

 

cachorro, roupa, telefone,

era preciso ser branca

uma velha sem pelanca

e se deixar ninguém

 

o tempo passa

como vai o trem

e vou seguindo

teu cheiro me levanta

despertar

mas não é você, nem ninguém

eu quero ser minha

e tudo isso me espanta

me lança

mas de feitiço não vou viver

 

vou te amar como nunca

e não vou te esquecer

te faço minha alavanca

me espanca,

mas preciso ser

Pensamento de ontem

e minhas pernas andavam

pois andar é o que as pernas fazem

como o rio que corre para o mar

ou a flor que flori e murcha

pois correr para o mar é do rio que passa

assim como passa o tempo

e florir e murchar é da flor

e de toda flor

que colore e murcha

 

e se fosse feito de pedra

não andava,

não corria,

não floria, nem murchava

seria o silêncio

como minha boca feita de pedra

e minha voz de areia

que o vento leva para o mundo

pois é da voz ser areia

e ser levada pelo vento

 

hoje, ao acordar

cheirei antes de ver

e quando procurava o teu cheiro

senti o cheiro do meu próprio corpo

que era gostoso e forte

como gostoso e forte é o cheiro da carne viva

e me senti vivo e bem morto

mas não tive tempo para pensar

porque é do pensamento nunca ter tempo para si

e de repente perceber-se com as pernas na frente da cabeça,

o murchar na frente do colorido da flor,

ou se esquecer preso pelas margens

quando o rio já é envolto todo de mar

pensamento margem

 

já é verão na minha pele e na minha cidade

que chove abafada pelos meus cantos

e acumula no poço dos meus olhos úmidos

essa irremediável cegueira de sede de se entregar

e de colorir e murchar,

de correr, de passar,

de mergulhar no mar e lançar o corpo

como lança-se um copo d’água,

sem pensar, nem dizer

senão o silêncio das pedras

e buscar a cumplicidade das tuas orelhas

para gritar com meus sussurros espumantes

a vontade de viver e de te amar

como ama-se a flor, o rio ou a pedra

ou quem percebe-se sendo e deixando de ser

porque é de todo ser o deixar de si mesmo

Corra

o nosso amor de rua

é aquele que procura

se perder

e se encontrar naquilo

que não dura

a cidade dura

nosso amor perfura

se beber

e se lançar naquilo

que desarruma

teu corpo arruma

tiro o armário

da maquina de escrever

despertar

carro, a rua urra

nosso amor apura

se comer

e se jogar altura

rasura, tuas pernas, tesoura

correr

e se pegar na unha

rascunha

nosso amor sem armadura

prazer pendura

Minha Emília

a minha Emília

ri sem honraria

de dia padaria

de noite hospedaria

 

a minha Emília

na casa é alegria

quando almoço porcaria

quando dorme roncaria

 

tentem alcançar a minha Emília!

ai, ela desapareceria!

 

a minha Emília sobe nas paredes

e do teto pularia

a janela é a porta

por onde minha Emília entraria

 

como é cara de pau a minha Emília!

para dizer verdades

ela mentiria

 

os homens ficam de cara

com a beleza da minha Emília

“Quanta liberdade e fantasia!”

- disse o vovô da família

 

o corpo cheio de magia

a maior infantaria

onde está o caráter

da minha Emília?

Poema para Joana

                           Meus amigos e amigas, fica aqui o beijo pelo aniversário de três anos de minha querida sobrinha. Este poema foi escrito no dia que ela chegou junto aqui no mundo! Um abraço pra todo mundo pela alegria das crianças!

                         

 

 

                                (Rio de Janeiro, 1º julho de 2005)

 

            calçaram meus pés

            vestiram minhas pernas

            pensaram minha cabeça

            sentiram meu coração

            quando eu nasci, eu já existia

            quando eu morrer eu serei eu mesma

 

            mas calçaram meus sapatos

            vestiram meu vestido

            pensaram minhas idéias

            sentiram meu desejo

            eu já morri antes de nascer

            ah, se eu pudesse escolher,

            eu não nasceria

            ah, se eu simplesmente pudesse,

            eu não poderia

 

            sim, eu terei teus pés

            eu terei tuas pernas

eu terei tua cabeça

eu terei teu coração

se eu não fosse tua

eu não seria eu mesma

 

mas sou tão frágil

mas sou tão forte

eu vou explodir

não me contenha

eu vou morrer, eu vou morrer

não se arrependa

eu não me arrependo

 

eu serei tua

eu me amo demais

obrigada por tudo

mas tudo se desfaz

adeus, vou nascer

o mundo me chama

que delícia louca viver

adeus, adeus, vamos morrer

Na combi mental

a minha morena é tão cheirosa

que vira cinema na minha prosa

fez o poema mais uma coda

nossa merenda-foda um novo epistema

Irritado

Escute uma vez mais, sua cocota:

afeto não é moeda de troca!

 

A andança de Ignácio Borges

Havia andado muitas léguas e réguas pelas ruas da cidade e o chinelo desgastado já comia as suas carnes. Não havia mais diferença entre a pele, o calo e borracha. Quando uma idéia fixava-lhe a mente, o único remédio era andar. Ignácio Borges fora acometido pela idéia da ciência. Nem mesmo o sonho de guardar nas redes um maracanaço, que algumas décadas atrás o levara a caminhar sete meses seguidos; nem os belos seios de tia Zazá, que em outro tempo o lançara dos pampas até os as ruínas Tiwanacus: nada disso parecia tão doloroso e insolúvel como agora. Os relógios não marcavam mais as horas, as roupas não marcavam mais a moda, e ninguém sabia direito há quanto tempo Ignácio Borges andava. E a ciência foi ganhando um espaço maior que o universo. Idéia fixa que estava em tudo que ele via.

Até quando numa tarde fora atomado pela cura da memória viva e a lembrança quente do velho bruxo o fez despertar da incansável caminança. Sentou e o joelho que não dobrava há muito tempo estalou um barulho de milhares de ossos, desmontando suas pernas no banco da praça. Desmontou como um ventríloquo sem vida. O Largo do Machado exibia um exuberante chafariz, com suas exuberantes crianças e Ignácio Borges pôs-se a pensar no velho amigo que, já fazia cem anos, morrera de uma incurável doença em sua pequena chácara um tanto mais acima no Cosme Velho. Só mesmo a profunda bruxaria do amigo podia desperta-lhe deste terrível sono. Contemplava a amizade e também os pequenos que mergulhavam e se banhavam no chafariz como grandes velocistas, deixando a desejar até mesmo o mais precioso dos Popov, que naquelas águas morreria mesmo afogado. Exibiam seus magníficos pequenos corpos que submergiam das águas em pulos alegres. As idéias são como paixões, pensou. Só um novo amor o fazia esquecer.

Ignácio Borges chorou uma lágrima de madeira. Via o tempo da vida abatido pelos olhares de medo dos transeuntes que cercavam a praça. E assim voltou para a mesma idéia da ciência e achou ruim. Tudo aquilo fez um tremendo sentido e ele não perderia mais o fio que pulava do emaranhado da realidade. O olhar da ciência não era mais dele, mas de tudo o que cercava aquela tarde, e espreitava por cima dos ombros das pessoas, das coisas e de toda aquela pintura imperativa, um pavor inquisitorial que exalava busca de verdade, busca de verdade única – medo de morte. Os olhos que cercavam o chafariz apontavam suas objetivas como armas fotográficas. Por fim, retratavam o pavor de si mesmos. Pavor de outro invertido na captura da espontaneidade humana. Roubavam-lhes as almas. Colonizavam corações.

Ignácio Borges, então, olhou para o texto de seu asqueroso pé. Conta na história dos Mayanambás que a língua escrita era imprecisa e fraca e que as melhores palavras toda a gente encontrava mesmo no próprio pé. A leitura dos pés dizia do exílio do tempo e da raiz da terra. Os pés de Ignácio Borges sempre de tudo tinham muito a dizer. Catou até mesmo alguns vermes a perguntar-lhes o que sabiam das digitais e linhas de sua sola negra.

- Meu Senhor – respondeu-lhe um longo verme gordo -, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

Nem se incomodavam com aquele chulé de asfalto. A ferida era grande e feia como um cancro que tudo podia engolir. Talvez o silêncio dos vermes fosse também uma forma de roer o roído. Mas quando se tem um fio e a toda gente começa a puxá-lo, este nunca mais volta para o novelo – isso ele viu no dedo mindinho -, porque se alguém morre, outro vem e começa puxá-lo de novo, e de novo sempre aparece alguma outra mosca – disse o dedão do pé -, de modo que não há sopa sem que caia uma mosca e que, portanto, é melhor engolir sopa com mosca e tudo: melhor que não comer e deixar no prato uma grande festa de moscas – ponderação final, ponderação de dedo médio. Mas, o que parecia dizer este grandioso ensinamento da política, a verdade imperativa da ciência parecia negar e, cada vez mais, esta se incomodava com as moscas da praça. O calcanhar de Ignácio Borges alertava-o para essa questão ontológica do mundo secular. Também Aquiles ouvia muito seu calcanhar. A lança que feria também curava. Queriam, pois, uma sopa pura e um chafariz sem meninos negros nadando. Tinha alguma coisa de colonizador na ciência que doía no coração de Ignácio Borges, alguma coisa que lutava pelo seu adestramento. Tudo o que não era o grande mesmo repetido parecia como algo estranho, algo natural e virgem; algo nativo posto a servir livremente a razão divina. A ciência dizia de um direito de prover-se do outro.

Fervia a mente de Ignácio Borges. A praça parecia um tribunal como aqueles do raquítico Franz, que tanto se identificava com os animais quando deitado na relva abrindo mão da vergonhosa retidão humana. Ser humano, bicho de coluna em pé! Era preciso que todos deitassem no chão para ver as estrelas. A praça esperava a confissão dos peixes. Ah, como na primeira missa… Depois lembrou das aulas de história quando menino na Terra do Fogo, em meio de enchentes e alagamentos que faziam o cemitério boiar e os caixões virarem barcos. Lembrou da amiga prostitua que morava em Sevilha. E do cachorro companheiro que não morria – já ia fazer trinta e quatro anos! Os amores, como as idéias, nos levam pelo tempo. Nada como a bruxaria da história e a loucura da lucidez!

Tinha alguma coisa no olho inquisidor da ciência que deveria ser canibalizada. Uma sopa de antropólogos. A grande festa das moscas! Confraternização geral. O terror do Zé do Caixão também tinha um quê de carnavalização do mundo. Cancros, vermes, baratas gigantes e carne humana. Fome. Indiana Jones, bispo Sardinha, fio dental. Comer Montaigne, comer Montaigne, comer Montaigne…

 

Vida

 

é sambar

ou sambar

 

Geladeira mundo

não acredito na manteiga,

na garrafa de refrigerante,

nem no pacote de leite UHT

 

não me serve

a ilusão estática

dos eletrodomésticos,

das latas,

dos frios,

das pastinhas, ervilhas,

madrugada, tomada, cozinha

 

minha lucidez

não é consciência de tomates,

nem a memória das cebolas,

nem o peso dos alfaces

 

preciso ouvir dos

teus olhos

nos meus

meus olhos teus

meu corpo instante

teu mais tempo meu quando instante

454 anos da deglutição do Bispo Sardinha!

                                                queridos amigos e amigas repugnadores da touca, comemoremos juntos a grande confraternização geral! Este é o mês da sardinha frita. Vale sardinha no almoço, sardinha no jantar, sardinha com suquinho de laranja no café da manhã! Corre por aí uma bocada de sardinha frita no bistrô da casa dos jesuítas. Os feirantes fazem a festa com o preço da sardinha: a expectativa é de uma aumento de quase 40% no preço do bispo, quer dizer, do bicho. Melhor forma de comemorar os oitenta anos de manifesto antropofágico não há. Quem tiver um padre a mão, coma-o!

 
 
 

 

 

Manifesto Antropofágico

 

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.” (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* “Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim”, in O Selvagem, de Couto Magalhães

O que fere cura!

teu beijo

me fez ser Dom Quixote,

com meus versos

volto ao Sancho Pança

 

como aqueles

que da campa fazem o berço

e se curam

com a própria lança

No chão

esse amor

a gente aprende na cidade,

caminhando

como o tabaco

se aprende no pulmão

    

            esquina

            nossas pernas

            multidão

 

a cidade é mais balão

que o cinema

e esse amor no chão

mais poema

que os livros d(a)e estante d(e)a televisão

Mundo propaganda

estão ganhando dinheiro

com os meus olhos

burra vigília

mesmo sem óculos

       policia

DADÁ

                                            Caminhando de braços abertos o pontuadas também caminha de braços dados. Neste caso, braços dadá dados! Vale conferir a videoarte dos jovens fotógrafos Pedro Victor Brandão e Marina Pachecco. Vamos aos drinks de Vilém Flüsser que daqui a pouco vai me dar uma fominha de bispo sardinha…

¡ ! ¡ ! ¡ – Suíte Dadá 

Marujo

Foram sinceras

as lágrimas do amigo

que se despedia 

com medo

levava o porto consigo

as águas, os ventos, os mares

ninguém sabia direito

o que aconteceria

 

No adeus marinheiro

nem mais a morte,

nem mais o corte,

ele simples partia

e partido levava o amigo

que se dividia

metade morava no peito,

outra, na poesia

Duelo

O meu olhar é uma manta e, por favor, me diga que está com frio.

“Calor, não é?” Eu morria; meu reino pelo vestidinho.

“Pois é. É calor que não acaba mais!” Foi o máximo que todo o meu maquiavelismo galanteador conseguiu naquele momento. Já não sabia se o calor vinha do sol ou se eu realmente tinha olhos flamejantes. Eu amava e queria desaparecer. Não lembro muito bem quanto tempo, mas fiquei ali, e o silêncio também ficou, como um barulho ensurdecedor. Eu queria dizer da beleza das mulheres, de como é bom ser homem para amar as mulheres e que ela era a mulher das mulheres. Mas disse da chuva que chegaria ainda de noite. Era então melhor desistir de tudo. Despedi-me decidido. Tinha compromissos, trabalhos, estudos, deveres, promessas, podia chover. Não consegui sair do lugar.

“Você vai, ou não?”, perguntou ela, impaciente e alegre, olhando-me nos olhos, um sorriso de escárnio, e as mãos na cintura. Era tudo só para mim.

“Vou”, hesitei decidido.

“Então, até mais!”, e me deu um beijo cheio na bochecha que eu não esperava, ela não esperava e eu morria de novo. A minha cabeça mal tinha processado a informação direito e quando alguns segundos depois ela chegou, chegou com tudo. Era alerta vermelho e o corpo pulsando, um circo dos horrores, e eu ainda sentia a umidade fresca dos seus lábios na minha face. Devo ter feito a cara mais estúpida do mundo.

“Nossa! Sou tão assustadora assim? Que horror!”

Mais uma morte. Era beleza demais. Uma faca no coração. Disse o que veio:

“Desculpe, mas você é linda!”, arrisquei. E fui embora marchando como um soldado, eu me sentia um máximo, meu reinado reergueu-se, eu escondia o medo. Não queria olhar de novo para ela, não devia olhar de novo para ela, mas olhei. Voltei como um pateta:

“Ah, já ia esquecendo…”, e ela me olhou com desprezo, do jeito que as mulheres olham quando amam e odeiam, “… isso aqui é para você”, surpreendi.

Ela iluminou-se: “Para mim? Um presente? O que é?”

“Não é nada demais”, menti: para mim era tudo.

“Ah, é um conto?”, disse ela meio na dúvida.

“É. Acho que sim. Eu fiz ontem de noite”.

“Para mim?”, ela exigia garantias.

“Claro”.

“Duelo”, leu o título em voz alta.

Eu disse que era dela, que ela lesse depois. E como nem um pouco boba que é ela perguntou se era um duelo de amor ou de morte.

“Tanto faz, acho que dá na mesma”, foi o que respondi.

“Então é um duelo de palavras?”, sugeriu.

“Talvez. Mas não só de palavras”.

“Obrigada”, ela sorriu, olhou ternamente para mim, dobrou com carinho o papel e guardou na bolsa. Era um charme precioso. E tudo aquilo só para mim. Nos despedimos de novo, desta vez muito naturalmente. Eu fui indo embora, não como um soldado, e também sem nada de reinado. Disse que não se preocupasse: era só um conto, nada mais.

Ela sorriu maliciosa: “E nada mais?”

Não precisei responder. Fui com o vento pela rua. Começava a chover. Era só um conto, e mesmo assim doía. E como gostoso doía!

 

(Rio de Janeiro, março de 2006)

Academia

o peixe morre pela boca

as paredes são de guelras

todo mundo é um aquário

também o gato tem o seu alpiste

        foca foca!

Média com pão

 

ilusão

é a minha obediência

sou eu a televisão

pode quebrar a minha

vidraça quebrada

pode sumir com a bola

que eu adoro

futebol de botão

Ligada no mundo

ligada

no mundo 

levava a casa

tinha pernas

na mochila

                        criativas

não precisava

                        que traziam

de parede

                        muita sede

o vento

                        a cidade

sua rede

                        não se mede

a cama

                        quando há

na camisa

                        querer da vida

liberdade

                        lucidez

sua língua

                        maior loucura

a rua

                        quanta coisa

meio quarto

                        pra dizer

até do pequeno

                        para calar

rato

                        no teu prazer

ficou

                        esse tempo

grande amiga

                        que não dura

O sonho de Ignácio Borges

Já não me importava mais a morte. Talvez por ser ainda muito jovem. Errei quantas vezes preciso e como queria errar muito mais e ainda tinha tantas coisas a errar. A solidão restava amiga e junto vinha o começo de tudo – já não me assustava. Também sabia que ainda haveria muito tempo e muitos começos de tudo e que esse tempo, todavia, era curto demais: já passou.

Era o cansaço que anunciava minha força. O “não” seco eu já ouvia como “sim”. Não fazia diferença. As janelas que fechavam eram outras que abriam. Se pudesse escolher, não escolheria. Eu seguia a vida do instante que não seguia. Era preciso respirar e ouvir, e não pensar muito não. Era preciso deixar de ser. Eu deixei. “Adeus, meu amor” – eu já não era preciso de nada. Ah… Mas a vida voltava e voltava. E como eu errava! Haveria de ter mil línguas e eu queimaria todas elas. Haveria muitas verdades, e eu negaria todas. Sempre há de haver um dia seguinte. Talvez por ser ainda muito jovem.

Eu não te queria minha. Não olhe para mim, me esquece e seja sua. Não pense em mim. Agora se passaram vinte, trinta, quarenta anos? Reproduziram-se a miséria dos seres e das coisas. Multiplicaram-se os mesmos e os outros. O espetáculo da alteridade. A solidão chegava e eu sabia que vinha o começo de tudo. Ah… Solidão! Mais dez, quinze, vinte. Quantos anos? Como quero viver! Como quero cantar! Eu tinha mil pernas e restava parado. Mas agora, não saio desta cadeira, não saio desta cama, não saio destes remédios. Eu haveria de ser tudo o que me fosse negado. Quem escolhe? Você escolhe? Existe alguma escolha? Se eu simplesmente pudesse, eu não poderia. Ah… Se fosse possível escolher, ninguém escolheria! Escolhi a escolha escolhida. O tempo é pensamento.

Mas agora sei, vou morrer. Não me importo. Talvez por ser ainda muito jovem. Errei quantas vezes preciso e como queria errar muito mais e ainda tinha tantas coisas a errar. A solidão restava amiga e junto vinha o começo de tudo – já não me assustava. Também sabia que ainda haveria muito tempo e muitos começos de tudo e que esse tempo, todavia, era curto demais: já passou?

Quebrando tudo!

Meus amigos e amigas, já estava mais do que na hora de associar a este híbrido espaço um pouco do trabalho do maestro e professor Itiberê Zwarg junto às oficinas de música universal na escola de música Pró-Arte, no Rio de Janeiro. Às vezes eu mesmo esqueço que já se foram mais de cinco anos…

Segue o endereço para o blog desritmificações do irmão de som Ricardo Sá Reston, que fez este brilhante trabalho de disponibilizar para todo mundo esse material. Obrigado, companheiro! Aproveitem bastante o som!

Caderno de Partituras – Oficinas de Música Universal de Itiberê

Marlene e o Sepulcro

Via-me diante de seu sepulcro. Em pé, com as pernas cansadas, os joelhos instáveis, um par de rosas entre os dedos e mais um par de sobrancelhas brancas e grossas que pulavam da minha cara. Sem mais angústias, sem mais Marlene, sem mais o que fazer, sem mais nada. Pode-se dizer que a morte, para Marlene, era a maior contradição possível de se imaginar. Marlene falava das coisas vivas, dos animais, das florestas e das baleias que deviam ser protegidas. Eu preferia ficar em casa vendo jogo de futebol pensando em qual doença ia me matar. Não sei por quê, mas com o tempo, tudo que um dizia e achava o outro sempre optava pelo extremo oposto. E como dizia, Marlene escolhera a vida. Para mim restava a morte. O que não imaginei foi que ela também morreria um dia. Isto permanecia para mim como algo incompreensível.

            Marlene era uma mulher que se afirmava como mulher, se vestia como mulher, andava como mulher, cheirava como mulher, ria como mulher, gozava como mulher, bebia como mulher, dançava como mulher, suava como mulher, ficava triste e carente como mulher, chorava como mulher, fumava como mulher, dormia como mulher, sonhava como mulher e no dia seguinte narrava todos os seus sonhos como mulher, achava que tudo tinha alguma ligação com o destino como mulher e ainda falava do significado e do enorme sentido da vida como mulher, tudo baseado no seu sentido materno espiritual de mulher. Devo admitir que era encantador. Mas para mim, não restava mais nada senão ser homem, e pior, ser um homem normal.

            Minhas sobrancelhas dizem que estou velho. Elas pesam sobre meus olhos, pesam sobre meu rosto e são brancas, totalmente brancas e grossas. Muitos dos poucos amigos que me restam dizem que estou velho. Um abraço, uma mão no ombro e um tapa na barriga, foi o que recebi.

 - Meus pêsames, velho amigo.

 - Marlene sim, ela sim era uma mulher.

 - Como pode a Morte levar um ser tão dócil e cheio de vida?!

 Idiotas! Para que servem? São como raposas, isso sim. Nos tempos bíblicos seriam todos mortos e jogados ao fogo.

 O sol abaixava. O calor nas costas diminuía. Uma suave luz amarelada serenava, tomando conta da tarde e dos ares do cemitério. Continuava ali, em pé, com as pernas cansadas e os joelhos instáveis e um par de rosas que morriam entre meus dedos. Incompreendido, via-me diante de seu sepulcro. E foi quando cocei uma de minhas sobrancelhas, que percebi que elas não me pesavam mais, que meus olhos não mais se escondiam por dentre seus pelos grossos e brancos. Por todos estes anos, foi como se carregasse sacos e sacos de batatas sobre minhas costas. Sempre tive as batatas, mas nunca me senti um vencedor. Para mim só restava a morte de um angustiado. Marlene era tão mulher e me beijava como mulher. Todos a queriam e a desejavam. Agora, a cruz que parecia carregar bem no meio da testa, sustentada por minhas sobrancelhas, se encontrava bem a minha frente, junto com a lápide de Marlene. Ali estava ela: a cruz, Marlene e as batatas. E junto com elas vinha minha angústia e todo aquele peso dos pelos grossos e brancos que na verdade não eram só das sobrancelhas, mas que também emergiam do meu nariz e da minha orelha.

 A luz da tarde pintava as cores e as coisas. Na minha frente estava minha vida, meu quadro. Tudo estava ali. Finalmente coloquei as rosas no chão para Marlene. Inclusive fantasiei uma pomba branca que pousaria bem no topo da cruz. Algumas raposas queriam assaltar as batatas, mas elas não me incomodavam mais e, cabisbaixas, foram embora. A pomba batia as asas, a angústia se desfalecia. Sentia-me leve como a luz da tarde, eu também serenava. Finalmente Marlene estava morta. Agora poderia amá-la sem mais nada, sem  mais o mundo batendo a porta. Agora poderia amá-la, num amor livre que voava. Minhas sobrancelhas grossas e brancas eram asas que nem asas de uma pomba pura. Prometi a mim mesmo um amor eterno. Toda tarde, naquela mesma luz, deixaria um novo par de rosas e retocaria meu quadro. Finalmente Marlene estava morta. Agora poderia amá-la. Eu vivia um amor de adolescente que fervia em minhas veias. Já faz uma semana que esqueci minhas doenças e parei de acompanhar o futebol.

 (Rio de Janeiro, março de 2004)

farsa falsa

escondo o medo

fingindo medo

para não ter medo

de me entregar

sem medo

do medo

Viva Zé Celso!

                             Salve, salve, Zé Celso Martinez! Façamos nossa tua lucidez. O pontuadas acertou o relógio que estava atrasado. O texto é de outubro do ano passado, mas agora que entramos de vez, abriremos nossas bocas e rabos: fica o registro do nosso Martinez!   

Texto de José Celso Martinez Corrêa pedindo a reparação de Canudos

Conversa

Emudeçamos,

e deixemos nossos corpos despreocupados

entregues à sábia conversa das barrigas

pedindo um ao outro

como se sente fome

            - e se come

ainda antes do café da manhã 

Ou ficar a pátria livre

E lá se foram mais de 1000 entradas… Saudades do nosso amigo Julio Costantinni, grande fotógrafo e humanista. Vale conferir o registro que se segue. Viva o cinema independente!

OU FICAR A PÁTRIA LIVRE – parte 1 de 2
http://www.youtube.com/watch?v=6SV0_tjJJSk

OU FICAR A PÁTRIA LIVRE – parte 2 de 2
http://www.youtube.com/watch?v=lD6e-zwk1ks

Mágoas de março

                     o poeta-irmão Bito escreve os seus quixotes no http://atestadodeobvio.wordpress.com/. Trago aqui seus versos. “Elementar meu caro Watson!”

 

tudo bem, então

o sol continua

vocês verão

Duas Vozes

Com um beijo eu te digo

            Não há espelho de vampiro

Meu desejo de ir embora

            Nem mais coelho na cartola

No calor do teu umbigo

            A cada amor que eu respiro

Eu respingo a tua cola

           Um espirro a toda hora

Percevejo o desabrigo

           E como fedo espremido

Caranguejo tua esmola

           Me protejo na gaiola

Teu sabor é de amido

           Meu labor é de bandido

Morango com graviola

Transporte-se!

Ah, como é bom transportar-se pela cidade! Amar as rodas, as pernas, os trilhos e os sonhos. Conhecer cada calçada, cada buraco e tijolo. Ver as vitrines tão belas e também as tão feias. Fazer amizade com as portas e janelas. Conhecer os cachorros e os pombos. Saber de todos os paralelepídedos: dos soltos, dos presos e dos voadores. Não esqueçamos de conhecer os esgotos e os postes e de dormir nos bancos de praça. Importante demais é transportar-se à luz do dia, mas também à noite, e registrar as diferenças de luminosidade e multidão. Cada prédio deve sua merecida atenção e cada jornaleiro sua merecida parada. Não se deve deixar de lado as barcas e as pontes. Circulemos por todos os lugares e deslizemos pelos corrimãos. Às vezes é muito importante correr e correr muito! Com muito sol, mas também com muita chuva. Eu amo a escada rolante, mas não se pode deixar de subir e descer pelas escadas roladas. Os trajetos curtos são uma delícia, e os longos, mais ainda. As bicicletas e as pessoas. Ah, os elevadores! Quantas caronas for preciso. Dormir nas combis e vans. Subir montanhas e serras e conhecer todos os ares. Cruzar passarelas. Mudar de temperatura e de umidade. Sentir a diferença dos ventos. Ah, meus amantes do tempo e do espaço. Como eu amo transportar-me parado! Às vezes, melhor coisa não há que chegar atrasado. Esperar também faz parte. Transportar-se na cama ou na pele e num prato de comida. Num pequeno doce, como Proust, ou pelos ares como o Bis. Viajar como o som e a luz, pelas pipas e raios, e no cheiro do café. Transportar-se na preguiça com seus gatos. Conhecer os transportes é tarefa de todos que vivem e morrem. Os ares para o pulmão, de fora para dentro, o movimento celular, salivas pela boca, a água do copo, a sujeira das mãos, os mosquitos que mordem, as árvores que arranham, a bexiga esvazia. Um mundo todo transportado no instante de uma fotografia. Como eu amo andar na rua, e fazer grandes caminhadas! 

Falstaffianas 3

FALA FALSTAFF! Por minha alma, este rapaz de sangue frio não gosta de mim e ninguém consegue fazê-lo rir; porém, isto não é de espantar, pois ele não bebe vinho! (…) Um bom xerex produz duplo efeito: primeiro, sobe-nos ao cérebro e lá desseca os tolos, estúpidos e acres vapores que o cercam, tornando-o esperto, ágil e inventivo, cheio de concepções ligeiras, ardentes e deleitosas formas, às quais transmitidas à voz, à língua, que lhes dá nascença, tornam-se excelentes ocorrências. A segunda propriedade de vosso excelente xerex é a de esquentar o sangue que, estando antes frio e calmo, deixava o fígado branco e pálido, o que é sinal de pusilanimidade e de covardia; mas o vinho de xerex o esquenta e o faz correr do centro para as extremidades. Ilumina o rosto que, como um farol, dá a todas as forças deste pequeno reino, o homem, o sinal para que se armem e, então, toda a milícia vital, todos os pequenos espíritos internos se reúnem em massa em torno do capitão, o coração, que, dilatado e orgulhoso com este exército, realiza qualquer ato que seja de valor e este valor vem do xerex! De sorte que a ciência das armas nada é sem o vinho, pois é ele que a põe em ação. A instrução não passa de uma mina de ouro guardada por um demônio, até que o vinho a explore, dando-lhe vida e emprego. (…) Seu eu tivesse mil filhos, o primeiro princípio humano que lhes ensinaria seria o de abjurarem toda a bebida ligeira e se dedicarem ao xerex.       

(Segunda parte de Henrique IV, Quarto Ato, Segunda Cena)

Rimante

cheiro no lençol

sono de manhã

grudado caracol

teu corpo me imã

espelho de anzol

teus olhos rolimã

me beijam cachecol

meu corpo feito lã

chovendo arrebol

te faço minha rã

esquento como o sol

marulho de aman

 

Aviso aos Navegantes

Amigos e amigas, náufragos e escafandristas de gaiato: antes do começo não havia nada que não fosse o antes do começo. As coisas só começam quando começam. Com base neste grandioso pensamento, peço com muito carinho a participação de todos com suas pontuadas de plantão. A viagem está só começando. Tudo aqui escrito visa uma futura publicação. De fome não morreremos: algum caldo vai dar!

Bitão

minha vida pulsão

tudo coração

macaco, planta, chão,

céu, vento, pão,

tudo reunião

janela, rua, cão,

água, copo, solidão

tudo mão, tudo mão

         -

piso curtindo o calçadão

almoço e não dispenso o narigão

quando sorrio abro um bocão

meu cigarrim vive no pulmão

tudo abração

         -

no mar sou peixão

na montanha ermitão

         -

na cidade corrimão

sou sempre multidão

         -

tudo irmão

Convocatória para os dois-mundos

Meus amigos e amigas de coração mutante, seguindo nossa caminhada performática, desorientemo-nos no difícil trabalho de ambulante e atemos fogo nesta ignóbil gramática! Que fiquem as praças um disforme rinoceronte, e as terras se dividam em outra matemática. Cairão as correntes das mentes apáticas e dos mares nascerão nossos sonhos delirantes. Vem Maria sapatão, vem o joão sem-braço, vem o príncipe do cangaço, Virgulino meu irmão! Marchem os poetas e os músicos e dancem os palhaços, é carnaval e a coisa aqui é mulher macho. Não há espaço para lirismo que não seja libertação!

Palavras-chaves

Internet, digital, cu, créu, Xuxa, programa, Disney, Mickey, buceta, Pelé, futebol, pau, legião urbana, sacanagem, lésbicas, BBB, o globo, flamengo, pedro biau, brasil, orkut, internet, paulo coelho, google, violência, yahoo, Deus, todos os tipos, tráfico, moda, programa de pós-graduação, ruas, venda fácil, favelas, grátis, lost, televisão, tribalistas, Condolezza Rice, Iraque, eleições, administração Bush, drogas, salve o planeta, maracanã, mundo, world, power, greenpeace, dengue, segundo, volta, tempo, morte, mata, família, estado, país, le monde, Espanha, terrorismo, terror, administração bush, lei, meio-ambiente, vestibular, provão, páscoa, investigação, NY, natal, funk, dança, reveillon, youtube, vídeo, música, cifras, partituras, carnaval, artes plásticas, cibernética, discussão, site oficial, página oficial, município do rio de janeiro, estado do rio de janeiro, São Paulo, Detran, verde, caveirão, mosquito, compras, submarino, casa e vídeo, home theater, computador, arte, aparelho de som, namorada, vestido de noiva, nelson rodrigues, the beatles, jonh lennon, tom cruise, kubrick, spinoza, tradução, alemanha, protestantismo, comunidade judaica, filosofia, publicação, microsoft, umbanda, cuba, Fidel Castro, brisilidade, bateria, harmonia, tags, poema, rede, arte moderna, romance, jesuítas, MAM, obina, osama, obama, barak obama, Papa Bento, sete maravilhas do mundo, cristo redentor, corcovado, Tom Jobim, aeroporto, Varig, gol, bola, basquete, Bolívia, Potosí, capital, bruxaria, trago pessoa amada, no country for old boy, sangue, idade média, império romano, compro ouro, carros usados, Queen, é isso que chamam de poesia pós-contemporânea?, metalinguagens… meu amigo Pedro Victor Brandão!

Teu estar

O silêncio da noite cai

Como uma concha em meus ouvidos

Fez-se mar no teu umbigo

Tuas pernas novo cais

                   -

É o teu cheiro que me sai

Onde vivo o meu exílio

Desapareço num respiro

Pulmão que pede mais

                   -

Quando o vento é um cardume

De prazer que se refaz

Vou voar com seu perfume

                   -

Noite-vinho bruxa audaz

A tua ausência me assume

          [torpor incólume]

Teu sorriso me compraz

Falstaffianas 2

FALA FALSTAFF!“Tenho em minha barriga uma escola de línguas e não há uma que pronuncie outra palavra que a não ser o meu nome. Se tivesse uma barriga vulgar, seria simplesmente a pessoa mais ativa da Europa. Mas minha barriga, minha barriga me trai…”

(Segunda Parte de Henrique IV, Quarto Ato, Segunda Cena)

Privada

Beijo vazado

Corpo vazio

Vaso quebrado

Vazei

Virei um charco

Às vezes teu vácuo

              -

E os olhos vidrados

Vesgos gemidos

Vinho vaiado

Voei

Virei um barco

Às vezes teu vácuo

             -

Tua borda boca

Lábio borrado

Rosa, cheiro, rouca

Vadio

Às vezes vedado

             -

E eu vomitando

Vinho vazado

Vazo o vazio

Vizinho

Corpo vidrado

Às vezes,

Boca, borda, borra, lábio

Mastiga charco

Barco vesgo

Vácuo

Às vezes teu vaso

             -

Um beijo borrado

Vazo vazio

Lábio vizinho

Vinho inventado

Vesgo gemido

Às vezes teu vácuo

Versos da Madrugada

Indizível de dizer

Te quero sempre intrusa

Minha janela se recusa

A fechar no anoitecer

Didática Geral

hoje eu li Tchecov

e vi um O.V.N.I.

amanhã acordo às nove

            tudo se move

quem sabe um love

 

Falstaffianas

FALA FALSTAFF! “Embalsamar-me? Se tu me embalsamares hoje, permito que me salgues e que me comas amanhã. Sangue de Cristo! Não sem tempo que fingi de morto, ou então aquele furioso e turbulento escocês ter-me-ia feito pagar-lhe o tributo e tudo mais também. Fingir? Estou enganado, nada tenho de fingido. Morrer é que é fingir; porque só se é simulacro de um homem, quando não se tem a vida de um homem; ao contrário, fingir de morto, quando com isto se pode viver não é fingir, mas, ao contrário, o real e perfeito modelo de vida. A parte melhor da coragem é a prudência, e foi graças a esta melhor parte que salvei minha vida.”

(Shakespeare, primeira parte de Henrique IV, Ato Quinto, Cena Quatro)

epitáfio

Comecemos pela morte, meus amigos lambedores de rabo! Em nossa chegada, por favor, que compareçam os vermes! Principalmente eles, grandes roedores do mundo. Que gritem os burros, as antas e os cavalos! Que pulem os sapos e voem os peixes! Que sambem e rolem as mulheres grávidas e que, por favor, não se esqueçam de fornicar. Forniquem todos ao máximo! Comam muita terra, areia, bebam água do mar! Esfreguem os rabos! Ai, ai, ai… Que deixem as rugas ganharem as bochechas e as testas e as crianças quebrarem os vidros chutando muita bola. Derrubemos todas as bastilhas: que arranquem as barriguilhas! Que sinfonias de peidos e arrotos ganhem os teatros. Como é bom mijar no poste! Mijemos juntos, meus amigos e amigas! Ah… São estas focas mal bebedoras de vinho que não sabem apreciar o quente e fervoroso xerez! Para a frigideira com eles e todos os sacerdotes do poder! A língua está solta para lamber as vacas!

 

Morte do Artista

foi a noite uma corte

pessoas elegantes

amigos verdadeiros

perucas

sucumbi como Mozart