Poema para Joana

                           Meus amigos e amigas, fica aqui o beijo pelo aniversário de três anos de minha querida sobrinha. Este poema foi escrito no dia que ela chegou junto aqui no mundo! Um abraço pra todo mundo pela alegria das crianças!

                         

 

 

                                (Rio de Janeiro, 1º julho de 2005)

 

            calçaram meus pés

            vestiram minhas pernas

            pensaram minha cabeça

            sentiram meu coração

            quando eu nasci, eu já existia

            quando eu morrer eu serei eu mesma

 

            mas calçaram meus sapatos

            vestiram meu vestido

            pensaram minhas idéias

            sentiram meu desejo

            eu já morri antes de nascer

            ah, se eu pudesse escolher,

            eu não nasceria

            ah, se eu simplesmente pudesse,

            eu não poderia

 

            sim, eu terei teus pés

            eu terei tuas pernas

eu terei tua cabeça

eu terei teu coração

se eu não fosse tua

eu não seria eu mesma

 

mas sou tão frágil

mas sou tão forte

eu vou explodir

não me contenha

eu vou morrer, eu vou morrer

não se arrependa

eu não me arrependo

 

eu serei tua

eu me amo demais

obrigada por tudo

mas tudo se desfaz

adeus, vou nascer

o mundo me chama

que delícia louca viver

adeus, adeus, vamos morrer

Na combi mental

a minha morena é tão cheirosa

que vira cinema na minha prosa

fez o poema mais uma coda

nossa merenda-foda um novo epistema

Irritado

Escute uma vez mais, sua cocota:

afeto não é moeda de troca!

 

A andança de Ignácio Borges

Havia andado muitas léguas e réguas pelas ruas da cidade e o chinelo desgastado já comia as suas carnes. Não havia mais diferença entre a pele, o calo e borracha. Quando uma idéia fixava-lhe a mente, o único remédio era andar. Ignácio Borges fora acometido pela idéia da ciência. Nem mesmo o sonho de guardar nas redes um maracanaço, que algumas décadas atrás o levara a caminhar sete meses seguidos; nem os belos seios de tia Zazá, que em outro tempo o lançara dos pampas até os as ruínas Tiwanacus: nada disso parecia tão doloroso e insolúvel como agora. Os relógios não marcavam mais as horas, as roupas não marcavam mais a moda, e ninguém sabia direito há quanto tempo Ignácio Borges andava. E a ciência foi ganhando um espaço maior que o universo. Idéia fixa que estava em tudo que ele via.

Até quando numa tarde fora atomado pela cura da memória viva e a lembrança quente do velho bruxo o fez despertar da incansável caminança. Sentou e o joelho que não dobrava há muito tempo estalou um barulho de milhares de ossos, desmontando suas pernas no banco da praça. Desmontou como um ventríloquo sem vida. O Largo do Machado exibia um exuberante chafariz, com suas exuberantes crianças e Ignácio Borges pôs-se a pensar no velho amigo que, já fazia cem anos, morrera de uma incurável doença em sua pequena chácara um tanto mais acima no Cosme Velho. Só mesmo a profunda bruxaria do amigo podia desperta-lhe deste terrível sono. Contemplava a amizade e também os pequenos que mergulhavam e se banhavam no chafariz como grandes velocistas, deixando a desejar até mesmo o mais precioso dos Popov, que naquelas águas morreria mesmo afogado. Exibiam seus magníficos pequenos corpos que submergiam das águas em pulos alegres. As idéias são como paixões, pensou. Só um novo amor o fazia esquecer.

Ignácio Borges chorou uma lágrima de madeira. Via o tempo da vida abatido pelos olhares de medo dos transeuntes que cercavam a praça. E assim voltou para a mesma idéia da ciência e achou ruim. Tudo aquilo fez um tremendo sentido e ele não perderia mais o fio que pulava do emaranhado da realidade. O olhar da ciência não era mais dele, mas de tudo o que cercava aquela tarde, e espreitava por cima dos ombros das pessoas, das coisas e de toda aquela pintura imperativa, um pavor inquisitorial que exalava busca de verdade, busca de verdade única - medo de morte. Os olhos que cercavam o chafariz apontavam suas objetivas como armas fotográficas. Por fim, retratavam o pavor de si mesmos. Pavor de outro invertido na captura da espontaneidade humana. Roubavam-lhes as almas. Colonizavam corações.

Ignácio Borges, então, olhou para o texto de seu asqueroso pé. Conta na história dos Mayanambás que a língua escrita era imprecisa e fraca e que as melhores palavras toda a gente encontrava mesmo no próprio pé. A leitura dos pés dizia do exílio do tempo e da raiz da terra. Os pés de Ignácio Borges sempre de tudo tinham muito a dizer. Catou até mesmo alguns vermes a perguntar-lhes o que sabiam das digitais e linhas de sua sola negra.

- Meu Senhor – respondeu-lhe um longo verme gordo -, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

Nem se incomodavam com aquele chulé de asfalto. A ferida era grande e feia como um cancro que tudo podia engolir. Talvez o silêncio dos vermes fosse também uma forma de roer o roído. Mas quando se tem um fio e a toda gente começa a puxá-lo, este nunca mais volta para o novelo - isso ele viu no dedo mindinho -, porque se alguém morre, outro vem e começa puxá-lo de novo, e de novo sempre aparece alguma outra mosca – disse o dedão do pé -, de modo que não há sopa sem que caia uma mosca e que, portanto, é melhor engolir sopa com mosca e tudo: melhor que não comer e deixar no prato uma grande festa de moscas – ponderação final, ponderação de dedo médio. Mas, o que parecia dizer este grandioso ensinamento da política, a verdade imperativa da ciência parecia negar e, cada vez mais, esta se incomodava com as moscas da praça. O calcanhar de Ignácio Borges alertava-o para essa questão ontológica do mundo secular. Também Aquiles ouvia muito seu calcanhar. A lança que feria também curava. Queriam, pois, uma sopa pura e um chafariz sem meninos negros nadando. Tinha alguma coisa de colonizador na ciência que doía no coração de Ignácio Borges, alguma coisa que lutava pelo seu adestramento. Tudo o que não era o grande mesmo repetido parecia como algo estranho, algo natural e virgem; algo nativo posto a servir livremente a razão divina. A ciência dizia de um direito de prover-se do outro.

Fervia a mente de Ignácio Borges. A praça parecia um tribunal como aqueles do raquítico Franz, que tanto se identificava com os animais quando deitado na relva abrindo mão da vergonhosa retidão humana. Ser humano, bicho de coluna em pé! Era preciso que todos deitassem no chão para ver as estrelas. A praça esperava a confissão dos peixes. Ah, como na primeira missa… Depois lembrou das aulas de história quando menino na Terra do Fogo, em meio de enchentes e alagamentos que faziam o cemitério boiar e os caixões virarem barcos. Lembrou da amiga prostitua que morava em Sevilha. E do cachorro companheiro que não morria - já ia fazer trinta e quatro anos! Os amores, como as idéias, nos levam pelo tempo. Nada como a bruxaria da história e a loucura da lucidez!

Tinha alguma coisa no olho inquisidor da ciência que deveria ser canibalizada. Uma sopa de antropólogos. A grande festa das moscas! Confraternização geral. O terror do Zé do Caixão também tinha um quê de carnavalização do mundo. Cancros, vermes, baratas gigantes e carne humana. Fome. Indiana Jones, bispo Sardinha, fio dental. Comer Montaigne, comer Montaigne, comer Montaigne…

 

Vida

 

é sambar

ou sambar

 

Geladeira mundo

não acredito na manteiga,

na garrafa de refrigerante,

nem no pacote de leite UHT

 

não me serve

a ilusão estática

dos eletrodomésticos,

das latas,

dos frios,

das pastinhas, ervilhas,

madrugada, tomada, cozinha

 

minha lucidez

não é consciência de tomates,

nem a memória das cebolas,

nem o peso dos alfaces

 

preciso ouvir dos

teus olhos

nos meus

meus olhos teus

meu corpo instante

teu mais tempo meu quando instante

454 anos da deglutição do Bispo Sardinha!

                                                queridos amigos e amigas repugnadores da touca, comemoremos juntos a grande confraternização geral! Este é o mês da sardinha frita. Vale sardinha no almoço, sardinha no jantar, sardinha com suquinho de laranja no café da manhã! Corre por aí uma bocada de sardinha frita no bistrô da casa dos jesuítas. Os feirantes fazem a festa com o preço da sardinha: a expectativa é de uma aumento de quase 40% no preço do bispo, quer dizer, do bicho. Melhor forma de comemorar os oitenta anos de manifesto antropofágico não há. Quem tiver um padre a mão, coma-o!

 
 
 

 

 

Manifesto Antropofágico

 

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.” (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* “Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim”, in O Selvagem, de Couto Magalhães

O que fere cura!

teu beijo

me fez ser Dom Quixote,

com meus versos

volto ao Sancho Pança

 

como aqueles

que da campa fazem o berço

e se curam

com a própria lança

No chão

esse amor

a gente aprende na cidade,

caminhando

como o tabaco

se aprende no pulmão

    

            esquina

            nossas pernas

            multidão

 

a cidade é mais balão

que o cinema

e esse amor no chão

mais poema

que os livros d(a)e estante d(e)a televisão

Mundo propaganda

estão ganhando dinheiro

com os meus olhos

burra vigília

mesmo sem óculos

       policia

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