Via-me diante de seu sepulcro. Em pé, com as pernas cansadas, os joelhos instáveis, um par de rosas entre os dedos e mais um par de sobrancelhas brancas e grossas que pulavam da minha cara. Sem mais angústias, sem mais Marlene, sem mais o que fazer, sem mais nada. Pode-se dizer que a morte, para Marlene, era a maior contradição possível de se imaginar. Marlene falava das coisas vivas, dos animais, das florestas e das baleias que deviam ser protegidas. Eu preferia ficar em casa vendo jogo de futebol pensando em qual doença ia me matar. Não sei por quê, mas com o tempo, tudo que um dizia e achava o outro sempre optava pelo extremo oposto. E como dizia, Marlene escolhera a vida. Para mim restava a morte. O que não imaginei foi que ela também morreria um dia. Isto permanecia para mim como algo incompreensível.
Marlene era uma mulher que se afirmava como mulher, se vestia como mulher, andava como mulher, cheirava como mulher, ria como mulher, gozava como mulher, bebia como mulher, dançava como mulher, suava como mulher, ficava triste e carente como mulher, chorava como mulher, fumava como mulher, dormia como mulher, sonhava como mulher e no dia seguinte narrava todos os seus sonhos como mulher, achava que tudo tinha alguma ligação com o destino como mulher e ainda falava do significado e do enorme sentido da vida como mulher, tudo baseado no seu sentido materno espiritual de mulher. Devo admitir que era encantador. Mas para mim, não restava mais nada senão ser homem, e pior, ser um homem normal.
Minhas sobrancelhas dizem que estou velho. Elas pesam sobre meus olhos, pesam sobre meu rosto e são brancas, totalmente brancas e grossas. Muitos dos poucos amigos que me restam dizem que estou velho. Um abraço, uma mão no ombro e um tapa na barriga, foi o que recebi.
- Meus pêsames, velho amigo.
- Marlene sim, ela sim era uma mulher.
- Como pode a Morte levar um ser tão dócil e cheio de vida?!
Idiotas! Para que servem? São como raposas, isso sim. Nos tempos bíblicos seriam todos mortos e jogados ao fogo.
O sol abaixava. O calor nas costas diminuía. Uma suave luz amarelada serenava, tomando conta da tarde e dos ares do cemitério. Continuava ali, em pé, com as pernas cansadas e os joelhos instáveis e um par de rosas que morriam entre meus dedos. Incompreendido, via-me diante de seu sepulcro. E foi quando cocei uma de minhas sobrancelhas, que percebi que elas não me pesavam mais, que meus olhos não mais se escondiam por dentre seus pelos grossos e brancos. Por todos estes anos, foi como se carregasse sacos e sacos de batatas sobre minhas costas. Sempre tive as batatas, mas nunca me senti um vencedor. Para mim só restava a morte de um angustiado. Marlene era tão mulher e me beijava como mulher. Todos a queriam e a desejavam. Agora, a cruz que parecia carregar bem no meio da testa, sustentada por minhas sobrancelhas, se encontrava bem a minha frente, junto com a lápide de Marlene. Ali estava ela: a cruz, Marlene e as batatas. E junto com elas vinha minha angústia e todo aquele peso dos pelos grossos e brancos que na verdade não eram só das sobrancelhas, mas que também emergiam do meu nariz e da minha orelha.
A luz da tarde pintava as cores e as coisas. Na minha frente estava minha vida, meu quadro. Tudo estava ali. Finalmente coloquei as rosas no chão para Marlene. Inclusive fantasiei uma pomba branca que pousaria bem no topo da cruz. Algumas raposas queriam assaltar as batatas, mas elas não me incomodavam mais e, cabisbaixas, foram embora. A pomba batia as asas, a angústia se desfalecia. Sentia-me leve como a luz da tarde, eu também serenava. Finalmente Marlene estava morta. Agora poderia amá-la sem mais nada, sem mais o mundo batendo a porta. Agora poderia amá-la, num amor livre que voava. Minhas sobrancelhas grossas e brancas eram asas que nem asas de uma pomba pura. Prometi a mim mesmo um amor eterno. Toda tarde, naquela mesma luz, deixaria um novo par de rosas e retocaria meu quadro. Finalmente Marlene estava morta. Agora poderia amá-la. Eu vivia um amor de adolescente que fervia em minhas veias. Já faz uma semana que esqueci minhas doenças e parei de acompanhar o futebol.
(Rio de Janeiro, março de 2004)
O que quer uma mulher?