O sonho de Ignácio Borges

Já não me importava mais a morte. Talvez por ser ainda muito jovem. Errei quantas vezes preciso e como queria errar muito mais e ainda tinha tantas coisas a errar. A solidão restava amiga e junto vinha o começo de tudo – já não me assustava. Também sabia que ainda haveria muito tempo e muitos começos de tudo e que esse tempo, todavia, era curto demais: já passou.

Era o cansaço que anunciava minha força. O “não” seco eu já ouvia como “sim”. Não fazia diferença. As janelas que fechavam eram outras que abriam. Se pudesse escolher, não escolheria. Eu seguia a vida do instante que não seguia. Era preciso respirar e ouvir, e não pensar muito não. Era preciso deixar de ser. Eu deixei. “Adeus, meu amor” – eu já não era preciso de nada. Ah… Mas a vida voltava e voltava. E como eu errava! Haveria de ter mil línguas e eu queimaria todas elas. Haveria muitas verdades, e eu negaria todas. Sempre há de haver um dia seguinte. Talvez por ser ainda muito jovem.

Eu não te queria minha. Não olhe para mim, me esquece e seja sua. Não pense em mim. Agora se passaram vinte, trinta, quarenta anos? Reproduziram-se a miséria dos seres e das coisas. Multiplicaram-se os mesmos e os outros. O espetáculo da alteridade. A solidão chegava e eu sabia que vinha o começo de tudo. Ah… Solidão! Mais dez, quinze, vinte. Quantos anos? Como quero viver! Como quero cantar! Eu tinha mil pernas e restava parado. Mas agora, não saio desta cadeira, não saio desta cama, não saio destes remédios. Eu haveria de ser tudo o que me fosse negado. Quem escolhe? Você escolhe? Existe alguma escolha? Se eu simplesmente pudesse, eu não poderia. Ah… Se fosse possível escolher, ninguém escolheria! Escolhi a escolha escolhida. O tempo é pensamento.

Mas agora sei, vou morrer. Não me importo. Talvez por ser ainda muito jovem. Errei quantas vezes preciso e como queria errar muito mais e ainda tinha tantas coisas a errar. A solidão restava amiga e junto vinha o começo de tudo – já não me assustava. Também sabia que ainda haveria muito tempo e muitos começos de tudo e que esse tempo, todavia, era curto demais: já passou?

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