A andança de Ignácio Borges

Havia andado muitas léguas e réguas pelas ruas da cidade e o chinelo desgastado já comia as suas carnes. Não havia mais diferença entre a pele, o calo e borracha. Quando uma idéia fixava-lhe a mente, o único remédio era andar. Ignácio Borges fora acometido pela idéia da ciência. Nem mesmo o sonho de guardar nas redes um maracanaço, que algumas décadas atrás o levara a caminhar sete meses seguidos; nem os belos seios de tia Zazá, que em outro tempo o lançara dos pampas até os as ruínas Tiwanacus: nada disso parecia tão doloroso e insolúvel como agora. Os relógios não marcavam mais as horas, as roupas não marcavam mais a moda, e ninguém sabia direito há quanto tempo Ignácio Borges andava. E a ciência foi ganhando um espaço maior que o universo. Idéia fixa que estava em tudo que ele via.

Até quando numa tarde fora atomado pela cura da memória viva e a lembrança quente do velho bruxo o fez despertar da incansável caminança. Sentou e o joelho que não dobrava há muito tempo estalou um barulho de milhares de ossos, desmontando suas pernas no banco da praça. Desmontou como um ventríloquo sem vida. O Largo do Machado exibia um exuberante chafariz, com suas exuberantes crianças e Ignácio Borges pôs-se a pensar no velho amigo que, já fazia cem anos, morrera de uma incurável doença em sua pequena chácara um tanto mais acima no Cosme Velho. Só mesmo a profunda bruxaria do amigo podia desperta-lhe deste terrível sono. Contemplava a amizade e também os pequenos que mergulhavam e se banhavam no chafariz como grandes velocistas, deixando a desejar até mesmo o mais precioso dos Popov, que naquelas águas morreria mesmo afogado. Exibiam seus magníficos pequenos corpos que submergiam das águas em pulos alegres. As idéias são como paixões, pensou. Só um novo amor o fazia esquecer.

Ignácio Borges chorou uma lágrima de madeira. Via o tempo da vida abatido pelos olhares de medo dos transeuntes que cercavam a praça. E assim voltou para a mesma idéia da ciência e achou ruim. Tudo aquilo fez um tremendo sentido e ele não perderia mais o fio que pulava do emaranhado da realidade. O olhar da ciência não era mais dele, mas de tudo o que cercava aquela tarde, e espreitava por cima dos ombros das pessoas, das coisas e de toda aquela pintura imperativa, um pavor inquisitorial que exalava busca de verdade, busca de verdade única – medo de morte. Os olhos que cercavam o chafariz apontavam suas objetivas como armas fotográficas. Por fim, retratavam o pavor de si mesmos. Pavor de outro invertido na captura da espontaneidade humana. Roubavam-lhes as almas. Colonizavam corações.

Ignácio Borges, então, olhou para o texto de seu asqueroso pé. Conta na história dos Mayanambás que a língua escrita era imprecisa e fraca e que as melhores palavras toda a gente encontrava mesmo no próprio pé. A leitura dos pés dizia do exílio do tempo e da raiz da terra. Os pés de Ignácio Borges sempre de tudo tinham muito a dizer. Catou até mesmo alguns vermes a perguntar-lhes o que sabiam das digitais e linhas de sua sola negra.

- Meu Senhor – respondeu-lhe um longo verme gordo -, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

Nem se incomodavam com aquele chulé de asfalto. A ferida era grande e feia como um cancro que tudo podia engolir. Talvez o silêncio dos vermes fosse também uma forma de roer o roído. Mas quando se tem um fio e a toda gente começa a puxá-lo, este nunca mais volta para o novelo – isso ele viu no dedo mindinho -, porque se alguém morre, outro vem e começa puxá-lo de novo, e de novo sempre aparece alguma outra mosca – disse o dedão do pé -, de modo que não há sopa sem que caia uma mosca e que, portanto, é melhor engolir sopa com mosca e tudo: melhor que não comer e deixar no prato uma grande festa de moscas – ponderação final, ponderação de dedo médio. Mas, o que parecia dizer este grandioso ensinamento da política, a verdade imperativa da ciência parecia negar e, cada vez mais, esta se incomodava com as moscas da praça. O calcanhar de Ignácio Borges alertava-o para essa questão ontológica do mundo secular. Também Aquiles ouvia muito seu calcanhar. A lança que feria também curava. Queriam, pois, uma sopa pura e um chafariz sem meninos negros nadando. Tinha alguma coisa de colonizador na ciência que doía no coração de Ignácio Borges, alguma coisa que lutava pelo seu adestramento. Tudo o que não era o grande mesmo repetido parecia como algo estranho, algo natural e virgem; algo nativo posto a servir livremente a razão divina. A ciência dizia de um direito de prover-se do outro.

Fervia a mente de Ignácio Borges. A praça parecia um tribunal como aqueles do raquítico Franz, que tanto se identificava com os animais quando deitado na relva abrindo mão da vergonhosa retidão humana. Ser humano, bicho de coluna em pé! Era preciso que todos deitassem no chão para ver as estrelas. A praça esperava a confissão dos peixes. Ah, como na primeira missa… Depois lembrou das aulas de história quando menino na Terra do Fogo, em meio de enchentes e alagamentos que faziam o cemitério boiar e os caixões virarem barcos. Lembrou da amiga prostitua que morava em Sevilha. E do cachorro companheiro que não morria – já ia fazer trinta e quatro anos! Os amores, como as idéias, nos levam pelo tempo. Nada como a bruxaria da história e a loucura da lucidez!

Tinha alguma coisa no olho inquisidor da ciência que deveria ser canibalizada. Uma sopa de antropólogos. A grande festa das moscas! Confraternização geral. O terror do Zé do Caixão também tinha um quê de carnavalização do mundo. Cancros, vermes, baratas gigantes e carne humana. Fome. Indiana Jones, bispo Sardinha, fio dental. Comer Montaigne, comer Montaigne, comer Montaigne…

 

1 Resposta para “A andança de Ignácio Borges”


  1. 1 Malu Junho 3, 2008 às 9:56 pm

    “Ignácio Borges, então, olhou para o texto de seu asqueroso pé. Conta na história dos Mayanambás que a língua escrita era imprecisa e fraca e que as melhores palavras toda a gente encontrava mesmo no próprio pé. A leitura dos pés dizia do exílio do tempo e da raiz da terra. Os pés de Ignácio Borges sempre de tudo tinham muito a dizer. Catou até mesmo alguns vermes a perguntar-lhes o que sabiam das digitais e linhas de sua sola negra.”

    Sabe que estou aqui pensando até agora o que meu pé trás escrito…


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