e minhas pernas andavam
pois andar é o que as pernas fazem
como o rio que corre para o mar
ou a flor que flori e murcha
pois correr para o mar é do rio que passa
assim como passa o tempo
e florir e murchar é da flor
e de toda flor
que colore e murcha
e se fosse feito de pedra
não andava,
não corria,
não floria, nem murchava
seria o silêncio
como minha boca feita de pedra
e minha voz de areia
que o vento leva para o mundo
pois é da voz ser areia
e ser levada pelo vento
hoje, ao acordar
cheirei antes de ver
e quando procurava o teu cheiro
senti o cheiro do meu próprio corpo
que era gostoso e forte
como gostoso e forte é o cheiro da carne viva
e me senti vivo e bem morto
mas não tive tempo para pensar
porque é do pensamento nunca ter tempo para si
e de repente perceber-se com as pernas na frente da cabeça,
o murchar na frente do colorido da flor,
ou se esquecer preso pelas margens
quando o rio já é envolto todo de mar
pensamento margem
já é verão na minha pele e na minha cidade
que chove abafada pelos meus cantos
e acumula no poço dos meus olhos úmidos
essa irremediável cegueira de sede de se entregar
e de colorir e murchar,
de correr, de passar,
de mergulhar no mar e lançar o corpo
como lança-se um copo d’água,
sem pensar, nem dizer
senão o silêncio das pedras
e buscar a cumplicidade das tuas orelhas
para gritar com meus sussurros espumantes
a vontade de viver e de te amar
como ama-se a flor, o rio ou a pedra
ou quem percebe-se sendo e deixando de ser
porque é de todo ser o deixar de si mesmo
marcelinho, marcelinho
caminhas com o tanto, marcelinho
tanta sede, tanta doçura, tanta (des)nudez
grande poeta esse marcelinho.