Pensamento de ontem

e minhas pernas andavam

pois andar é o que as pernas fazem

como o rio que corre para o mar

ou a flor que flori e murcha

pois correr para o mar é do rio que passa

assim como passa o tempo

e florir e murchar é da flor

e de toda flor

que colore e murcha

 

e se fosse feito de pedra

não andava,

não corria,

não floria, nem murchava

seria o silêncio

como minha boca feita de pedra

e minha voz de areia

que o vento leva para o mundo

pois é da voz ser areia

e ser levada pelo vento

 

hoje, ao acordar

cheirei antes de ver

e quando procurava o teu cheiro

senti o cheiro do meu próprio corpo

que era gostoso e forte

como gostoso e forte é o cheiro da carne viva

e me senti vivo e bem morto

mas não tive tempo para pensar

porque é do pensamento nunca ter tempo para si

e de repente perceber-se com as pernas na frente da cabeça,

o murchar na frente do colorido da flor,

ou se esquecer preso pelas margens

quando o rio já é envolto todo de mar

pensamento margem

 

já é verão na minha pele e na minha cidade

que chove abafada pelos meus cantos

e acumula no poço dos meus olhos úmidos

essa irremediável cegueira de sede de se entregar

e de colorir e murchar,

de correr, de passar,

de mergulhar no mar e lançar o corpo

como lança-se um copo d’água,

sem pensar, nem dizer

senão o silêncio das pedras

e buscar a cumplicidade das tuas orelhas

para gritar com meus sussurros espumantes

a vontade de viver e de te amar

como ama-se a flor, o rio ou a pedra

ou quem percebe-se sendo e deixando de ser

porque é de todo ser o deixar de si mesmo

1 Resposta para “Pensamento de ontem”


  1. 1 André Mielnik Agosto 22, 2008 às 2:56 pm

    marcelinho, marcelinho
    caminhas com o tanto, marcelinho
    tanta sede, tanta doçura, tanta (des)nudez

    grande poeta esse marcelinho.


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