Contemporânea

bombardearam Bagdá
e ninguém se importa mais com isso
com exceção daquele artista plástico
portador do vírus

ele era um ser todo tropical
com mar, floresta e o sol
mas sentia a mesma dor animal
que o Win Wenders

os desenhos foram feitos
assim meio ao acaso
mas diziam da angústia
de contar tudo pra mamãe

um dia chorou
com o playback do Pablo
cantando a música
no Silvio Santos

deixou um monte de coisas
que hoje valem um milhão
em New York
e um apartamento luxuoso
que o herdeiro é um cão

os amigos lembram com carinho
volta e meia, e celebram o vazio
com álcool e cigarros
enquanto olham da janela do vigésimo andar

na esquina os chineses fazem pastel
de carne de verdade
ao lado da drogaria iluminada
com luz fria

os crentes cantam rock
o ônibus não passa
e do outro lado
estão parados
dois carros de polícia

bombardearam Bagdá
ontem de novo
com exceção daquele portador

Publicidade

Loucos, os fumantes

um cigarro
não posso, não deixam
mesmo em casa, só escondido
do marido saudável
da mulher que se incomoda
da filha esportista de dezessete anos
do moleque que cresceu
e vigia os mais velhos como um cão

tem um tio-avô que morreu de câncer, dizem
na sociedade fitness
todos sofrem de obesidade, anorexia
e morrem de câncer

entre homens e mulheres cosméticos
ninguém pode sofrer e morrer

um cigarro, e uma pausa
do trabalho
para olhar pro nada
de dentro de si, frente ao vazio
e simplesmente restar-se inútil
saboreando o tempo e a morte

só os atores escapam
no cigarro e na ficção
fumam em ambientes fechados
e morrem alegres, entabacados
baforam em teatros e carros
no cinema, na cama, no avião
acendem solenemente um cigarro em ação
e debocham da plateia calada
que aceita o disparate artístico
como um ritual indígena

Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 450 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 8 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

Amor libriano

amor injusto
e desigual
amar essa mulher
chamada liberdade
sem utopia

e mesmo fantasma
pela cidade
amar sem igual
mulher sem nostalgia

amo e luto
liberdade
contra a injustiça

quando injusto amor
mulher, me ajusto
não há no amor justiça

me arrisco
amar a liberdade
chamada essa mulher
sem ilusão
mas com fantasia

e mesmo fantasma
pela cidade
amar sem juiz
nosso amor desigual
bacante e cheio de magia

Descabido amor

meu amor sem fotografia
corre bicho
pela flama do instante
tal ardor
enquadrado na estante
preso e frio
repousaria

uma imagem sem poesia
impede a morte viver no amante
qual museu de mar ao navegante
que – forte – na água
estranha tanta calmaria

fera , amiga
teu carinho e fotogenia
vivem soltos no verdume coruscante
onde a natureza faz-se restaurante
em cardápio de agora e alegria

vem o amor descampar a pradaria
tamanho tão sem ……..
que nem cabe na Bahia restante
e descabido o amar da fotografia
pelo o céu de Brasília
perto fica de todo horizonte

tempo bailarina
dança teu cardume inconstante
muda de rompante
rumo novo que me guia

[e dessa rebelde sincronia
um jardim de amor consoante
não há dia ou noite exasperante
que pela manhã se seguiria]

mesmo quando espreita a nostalgia
de algum momento distante
vou amar sem fotografia
teu corpo aqui
na idade incontável do sol
onde a palavra – saudade
é um feliz e diabético saci
fumando cachimbo no arrebol

e dessa estranha alegoria
segue añejo, amor meu
ainda mais debutante
quando perto cheiro
a orquídea fumegante
no calor teu
de meio-dia

nem o mais vil deserto impediria
nossa úmida república itinerante
natação que faz aérea ponte
deixar de lado a máquina
e amar adentro
em mar de poesia

23 de julho, ainda

na madrugada fria
de uma rua ordinária
a cidade já dormia

inferno de metralha
estrondo que fazia
surda Candelária

vinte anos passaria
da canalha mercenária
a matar por covardia

a criança involuntária
que seu filho poderia

pulsa a coronária
ao pé da escadaria
a mudança necessária

nem mais um dia
de farda funerária
chega de chacina!

Superquadra sul

minha asa, teu endereço
meu amor sem bengala
constante recomeço

jardim da tua asa
sul, suvaco de América
da rua alfanumérica
onde mora a tua casa

vem junho, julho, mais fevereiro
no calor da tua matutina brasa
nasce a flor da minha asa
o cerrado é mundo inteiro

sonho: brilha o amor verdejeiro
se espalhando pelo chão de terra vermelha
que venha São João!
a subir como um balão fogueteiro
nosso amar multicor fumegante
banhado entre estrelas
no mar de céu grande
de ser tão tuas veredas

Perdidos e achados

feriado

ainda melhor que a ruína

um parque de monumentos
sem braço, espada ou cavalo

        lembranças do futuro
        do que não pude
        não deixar de não ser

ainda melhor
melhor que a ruína

        a lapidação
        do braço da Vênus

ou ainda

o beijo entre ruas e bares
conhecendo a boca
aventando caminhos
a serem incompletos

        o cigarro molhado de chuva
        aceso no bico

a cartografia do beijo
espaço sem fim do desconhecido
que incrível acontece
entre duas bocas
sem GPS

                                encontro das faltas
                            lábios e perdas
                        achado e palavras
                    em verso armado
                de concreto armado

viajar para o cerrado
com meu serrado ser

ainda melhor

deixar-se aos escombros
                      dos corpos amantes

rindo da busca
pelo tudo, todo, toldo
ou manto

minto

quero sua manta
de tecido barato americano

minha busca
pelo que não sou
alegria cheia de vida
desperta em mim o desconhecido
que encontro às vezes na esquina

ainda a ruína

se perder na tua superfície
como quem se afoga no rasinho
e de repente levanta rindo
do possível impossível

ainda,

sentir o talho
no corpo vivo
se prender nas tuas pernas
e esquecer o gozo
que não ainda
que não escombro ou ruína

Añejo amor

um ano passou
como três
e ela ficou

tempo veloz
que da espera fez
um fruto sem pressa
que bem madurou

no convés da janela
onde guarda teu canto
o tempo deu vez
ao encontro

instante, tanto, estando

o tempo é um rês
que olha mulheres e homens
como na primeira vez

fumo cobre e cheiro
me leva ao efêmero espanto
do óbvio
nos envolve agora um rum vermelho
envelhecido encanto
a fazer da amiga instantânea
um amor añejo
que chega moroso
para um novo ano

A reprodução da barbárie serve à repressão social

Marcelo Neder Cerqueira

Penso que devemos estar atentos para o excesso de reprodução e espetacularização da imagem do adolescente (16 anos) torturado e preso ao poste, no Flamengo, mesmo quando nossa intenção é questionar e denunciar tais atos como absurdos.

A técnica de exposição dos corpos feridos, mortos, desnudados ou torturados em praça pública é coisa antiga, incrustada em nossa formação social, que nos remete à Idade Média. Existem diversos estudos que apontam como os enforcamentos e fogueiras em público exerciam um papel de controle social através da exposição ao medo e horror exemplarmente (e simbolicamente) praticados em sujeitos estigmatizados. Para tanto, é preciso que a imagem construída sobre este sujeito cumpra um lugar simbólico representativo que sustente o apelo imaginário das massas (ideologicamente manipuladas). Na história do Brasil, os pelourinhos exerciam essa função social, com chibatadas, punições, torturas e mutilações de negros escravizados revoltosos em praça pública. Diante disso, não basta colocar uma tarja preta nos olhos ou embaralhar digitalmente a imagem do rosto (garantia democrática do nosso Estatuto da Criança e do Adolescente): no Brasil, para realizar efeito análogo é preciso que o adolescente amarrado ao poste seja exemplarmente identificado com a cidade quilombada.

(O embaralhamento digital do rosto ainda confere um aspecto monstruoso à vítima ao passo que recalca o uso da tarja preta; a “velha” tarja preta explicita uma “proibição”, um “limite”, que quando se trata de crianças e adolescentes, significa o direito de preservação da sua imagem; a substituição (recalque?) da tarja preta na construção do limite/direito para uma imagem alterada digitalmente nos leva a um outro debate, mais sinuoso, sobre os usos e abusos da prática jornalística).

O caráter exemplar das punições e mutilações de hoje cumpre o mesmo papel ideológico do passado, calando fundo no imaginário de nossa formação social. A repetição da antiga prática do desnudadamento para a violência e expiação é apenas mais um sintoma da construção sádica de um corpo destituído de sua condição humana para o usufruto da violência bárbara compartilhada e consentida pela moral medrosa da sociedade. De forma análoga, quem não recorda o caráter exemplar das cabeças enfileiradas e ordenadas para a “bela” foto que pôs fim ao banditismo cangaceiro? Alguém duvida da mensagem que elas passam?

A novidade é que a “praça pública” agora é o mundo virtual. Se ao longo da década de 90 éramos bombardeados com violentas capas de jornais devidamente expostas nas bancas, com corpos sangrando sendo carregados em carrinhos de obra, hoje em dia, pelo face, os próprios usuários se encarregam da reprodução (aparentemente involuntária e espontânea) dessas imagens. A grande mídia lava as mãos e simplesmente republica o que já é notícia e la nave va… Todavia, o procedimento ideológico é o mesmo: produzir terror e manipular o medo na construção da legitimidade – essa forma de cumplicidade cega e acrítica que conduz os corações e mentes a aplaudir (e pedir) a violência (contra si mesmo), aceitando passivamente a ordem social imposta na dinâmica da luta de classes.

Nada é totalmente espontâneo e casual. Se olharmos com atenção a crônica feicibuquiana, há menos de uma semana foi compartilhado (por diversas pessoas) muitas cenas de assalto e pânico no Aterro do Flamengo. Quem publicou isso? A quem serve a reprodução dessas imagens? Ao que parece, hoje, treze homens e um adolescente foram levados para a Delegacia do Catete e responderão em liberdade por formação de quadrilha, tentativa de lesão corporal e corrupção de menores. Onde está a excessiva reprodução das imagens desses possíveis criminosos (todos de classe média e moradores do bairro Flamengo)? Longe de achar que elas devam ser igualmente espetacularizadas, devemos estar atentos para a forma desigual como os direitos são garantidos para uns e negados para outros. Por que? Qual a diferença produzida quando uma matéria de jornal usa a expressão “justiceiros” e não a expressão “quadrilha” ou “bandidos”? Penso que devemos realmente refletir sobre isso, antes que o dedo nervoso (da acusação, da covardia, do medo) se apodere do mouse de nosso computador e repita o mote alucinante do menino de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick: “redrum, redrum, redrum…”

À vera

 

dura, a verdade

é uma verdura

que estraga num par de dias

 

prima, a verdade

é muito próxima

só conhece a primavera

 

fera, a verdade

é uma pantera

que arde e grita

com pernas fortes

 

fura, a verdade

é uma pintura

com um buraco no meio

Artista da fome

bem que tentei

mas não consegui

sou um fora-da-lei

John Wayne guarani

 

herói do avesso

me perco por aí

por dentro, desejo

enfrento, faquir

 

como resistir

a esse riso que rima gigante

a essas pernas fortes

de animal galante

vontade da mandíbula

que me quebra os dentes

 

mundo mudou quando conheci

essa menina fosforescente

amiga como a aguardente

mulher que faz o herói ruir

Caia tarde

cai a tarde

como um anjo

torto de desejo

querendo ser humano

arde a noite e do céu

seu despejo mundano

 

moribundo, marimbondo

refém do infinito

pega a tesourinha do banheiro

corta as asas

faz do sangue teu arbítrio

anoitece, deita as penas

e caminha as pernas

cego, vivo

 

reclama a noite

e a carne em chama arde

vagabundo, vagalume

cintila desalado

entregue à lama

livre, sem alarde

deita ao chão

com os bichos da mata

na alegria universal da morte

mira a tarde azul e as estrelas

onde mora o corte

 

caia tarde

este tempo tão efêmero

namorando o infinito

encara o Criador

com teu cânhamo terreno

leva a dor, louva-deus

a dormir em desabrigo

Raje

 

rajada cidade

ferida de sonho

concreto aberto

 

palavra que corta

afunda a fenda

feminino

 

toma o trem

navalha e trilho

 

jardim de flores armadas

em movimento

cravando umbigo

“Rave-arrastão”: crônica do paradoxo entre a praga e a oração

Por Marcelo Neder Cerqueira

            Poucos sabiam o que estava em marcha nas manifestações que tomaram a cidade do Rio de Janeiro, na quinta feira passada. Entretanto, um grupo de camelôs da Central do Brasil não tinha nenhuma dúvida. O faro intuitivo e pragmático do mercador popular já dizia tudo: vendiam enormes bandeiras do Brasil, fitas verde-amarelas, dentre outros adereços para torcer pela seleção canarinho. Um estrangeiro desavisado poderia não entender nada. Pequenas multidões em verde e amarelo, vestidas para o jogo da seleção, com bandeiras e vuvuzelas, entoavam o canto: “não vai ter copa”.

            “Será a volta do monstro daquela época”, questiona Gilberto Gil, alertando para as explícitas e implícitas manifestações golpistas em marcha. Ironicamente, ou não, o signo-bonde do nacional continua sendo o futebol. Pra frente, Brasil! A pátria pendura as chuteiras?

Estamos em um fim de semana de profunda reflexão e atordoamento. Vejo muitas pessoas ainda em “estado de choque” (algumas, literalmente) e outras passando por grandes transformações existenciais. Vamos, gente, a luta continua e é preciso enfrentar a nós mesmos!

Paradoxo estendido na areia: os gritos de “sem violência” dos manifestantes dividindo o mesmo espaço com o linchamento de um menino de rua que havia furtado um celular. Era preciso chamar a polícia para garantir a segurança do menino. Como assim? Não fosse a atuação de alguns manifestantes mais lúcidos, poderia ter acontecido uma tragédia.

E a bela jovem, que em meio a massa, andava solitária com o cartaz “quero um namorado padrão Fifa”. Manifestava com incrível sinceridade e potência o que não é fácil formular: a conquista do desejo. Entretanto, em meio a cartazes contra a corrupção, deseja ela também um namorado engravatado com nível de corrupção Fifa? Será isso?

Que dizer sobre o rapaz homossexual, aparentemente assumido, que portava nos braços levantados o cartaz: “sou gay e Marco Feliciano me representa”.

O que significa estas imagens paradoxais bastante relevantes sobre a última manifestação que tomou o Rio de Janeiro, na quinta-feira passada? Penso que, antes de tentar compreendê-las em sua dolorosa e cômica complexidade, elas falam por si mesmas. São relatos de situações que guardam uma potência ambivalente e contraditória, mas que nos ajudam a compreender o estranho rumo tomado pelas manifestações em todo o país.

Recordo aqui a célebre expressão “óbvio ululante”, de Nelson Rodrigues. Talvez seja esta a chave de leitura mais apropriada para se compreender o enfrentamento crítico – o trabalho de casa – que cada um deve fazer dentro de si mesmo. Não há outro caminho, e o caminho é difícil e cotidiano: é preciso enfrentar a íntima cumplicidade política-ideológica da classe-média com o “monstro” que acordou. É preciso fazer isso agora, em “tempo real”, e não depois.

A Polícia Militar, na altura da Prefeitura, soltava bombas de gás lacrimogênio para dispersar uma multidão completamente despreparada para lidar com a situação. O carro de som vinha logo atrás tocando o hino nacional com outras tantas pessoas cantando um hino que ninguém sabe a letra. O canal do mangue já subia fedorento e irracional, quando apagaram a luz da Presidente Vargas. O corre-corre generalizado podia deixar dezenas de feridos não fosse a ação consciente de alguns mais acostumados a manifestações pedindo calma à boiada. Talvez a fumaça de tanto gás lacrimogênio tenha deixado todos cegos por um tempo indefinido.

Mas a Polícia não parou aí. Ela seguiu sua “dispersão” Lapa adentro enquanto a pancadaria desordenada comia solta na Central do Brasil. A classe-média foi às ruas com um grito incerto e manipulado contra a corrupção e parou para tomar uma cervejinha na Lapa. Eu vi a “grã fina com narina de cadáver”, em pânico, com um copo cerveja e um pastelzinho na mão correndo para dentro do bar. Mas não: ela não largava a cerveja, e alguns segundos depois do desespero, dava uma dentada no pastelzinho. Tudo estava bem?

Deve ter sido o gozo sádico dos capitães nascimentos. Não vejo outra leitura que não tenha algo de projeção psicanalítica. A mesma classe-média verde-amarela que ovacionou e heroicizou as cenas de “violência purificadora”, de Tropa de Elite, seja contra o “traficante”, seja contra os “políticos corruptos”, foi inadvertidamente perseguida e encurralada pelas ruas do centro da cidade. Impossível descrever a experiência traumática vivenciada por essas pessoas. Uma mulher gritava na Rio Branco: “vai para a favela!” Outra dizia, perplexa: “eles não estão diferenciando nós, os manifestantes pacíficos, dos vândalos e bandidos”. O que significa este tipo de discurso?

Por outro lado, os estudantes e manifestantes de movimentos sociais, do campo democrático, com suas lutas e bandeiras democráticas, foram perseguidos por todos os lados. Dia de cão: primeiro, por grupos de outros manifestantes que intencionalmente provocavam e inclusive agrediam quem fosse identificado como “esquerdista” ou “militante de esquerda”; depois, pela própria polícia militar, que encurralou diversos estudantes pelos becos do centro da cidade. Muitos encontraram abrigo e segurança somente na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi preciso chamar a OAB para fazer uma mediação com a Polícia Militar e garantir que todo mundo conseguisse sair ileso do centro da cidade.

Não é fácil compreender como a manifestação pelo Passe-Livre, explicitamente identificada no campo democrático, que sempre contou com a presença de diferentes partidos de esquerda e mais de dez anos de luta, foi sendo sistematicamente apropriada pela grande mídia golpista e pela grande massa da classe-média insatisfeita como perseguição e coerção a qualquer bandeira identificada como “vermelha”.

Brincando de coisa séria. O que aconteceu no Rio de Janeiro foi um aviso muito claro. Conquista do Piranhão? Que “votem nas putas”, então, como dizia um dos cartazes. “Onde você esconde o seu fascismo?”.

É preciso estar atento e forte

por Marcelo Neder Cerqueira

Na política, vale o efeito. Importa menos para onde mira o arqueiro, e mais onde cai a flecha. Neste sentido, as pertinentes ponderações dos líderes do Movimento pelo Passe Livre (MPL), alertando a manipulação estratégica realizada pela grande mídia – com destaque para a Rede Globo – e reivindicando as causas libertárias originais do movimento, fazem pouca diferença. A manobra de manipulação política contra o governo federal e a presidente Dilma já vem “pintando a cara” das manifestações desde a semana passada. E a tinta vai ser mais “branca” e “verde-amarela” quanto mais a classe-média sentir-se tocada pela revolta e insatisfação com “os políticos corruptos”, de forma genérica e indefinida.

Ao contrário do que gostaria de acreditar, as manifestações não tem uma direção definida e estão sendo disputadas por diferentes grupos. O MPL, que puxou as primeiras mobilizações, tem uma direção definida; os partidos de esquerda, como PSOL e PSTU tem uma direção definida, inclusive de olho nas eleições; alguns representantes de movimentos sociais, agremiações estudantis, sindicatos de trabalhadores, estudantes e profissionais liberais e mesmo alguns militantes do PT, sem bandeira, claro, mas identificados na luta comum por direitos sociais também se posicionam de forma mais ou menos definida – e foi interessante observar na passeata de segunda feira, no Rio de Janeiro, certa união entre estes grupos distintos.

Mas seria muita inocência acreditar que havia apenas estes interesses disputando o rumo das manifestações. No caso do Rio de Janeiro, especialmente, havia a militância do grupo do Anthony Garotinho que, como sabemos, vem fazendo forte oposição ao Sérgio Cabral e ao Governo Federal. A militância do Garotinho esteve presente na recente greve dos bombeiros, no Rio de Janeiro, e tem bastante influência entre os evangélicos. Portanto, ninguém deve estranhar quando provavelmente um taxista demonstrar certa simpatia pela manifestação, nem quando um bombeiro de ocasião gritar “Cabral ditador”. Neste caso, vale observar ainda, o grupo do Garotinho também assume um discurso crítico à Rede Globo – como sabemos, a emissora vem perdendo audiência entre os evangélicos que “se ligam” na TV Record. Isso se torna especialmente relevante quando estamos a menos de um mês do “megaevento” Jornada da Juventude Católica e da visita do Papa. A denúncia dos gastos excessivos do megaevento que favorece o interesse privado da Igreja Católica, neste caso, não parte apenas do campo socialista, que luta por uma sociedade mais democrática e laicizada. É preciso estar atento à diversidade de grupos políticos que se justapõe em diferentes discursos.

Destacam-se ainda os interesses de grupos políticos infiltrados nas manifestações. Por mais que a indignação possa ter tomado um ou outro manifestante, as cenas de depredação e rebeldia exageradas guardam também certo “profissionalismo”, fazendo desconfiar sobre a presença de milícias infiltradas e grupos de extermínio que, apesar da transição democrática, não deixaram de manter suas atividades em todo Brasil. A ação da Polícia Militar de São Paulo na quinta feira passada deve ser compreendida neste diapasão. A quem interessa fazer das manifestações um cenário de guerra e terror desmedido? Que interesse político primeiro tira proveito deste cenário? Seria ingenuidade supor que uma Polícia Militar como a de São Paulo responde tão diretamente às ordens de políticos civis, em especial nestes momentos de tensão política, mesmo em se tratando de um governo tucano, por exemplo. Por mais que o Governo de São Paulo mude o discurso, e que o secretário de segurança proíba o uso da violência policial, existe um ou outro grupo dentro da Polícia Militar afeito a desobediência da hierarquia, que simplesmente não respeita ordens desse tipo. Na saída da Ditadura Militar, o Brasil não fez a transição da “polícia política” para uma “polícia cidadã”. O mesmo pode ser observado em outras instituições políticas. A insatisfação destes velhos setores paramilitares conservadores, afeitos à prática política antidemocrática e repressora, se torna ainda mais evidente quando destacamos o atual (embora limitado) debate promovido pela Comissão Nacional da Verdade. De fato, seria preciso discutir uma verdadeira reformulação das polícias militares, bastião conservador da ideologia da segurança nacional e do desrespeito aos direitos humanos. As cenas de “violência profissional sem farda” serão tão maiores quanto mais indeterminadas forem as grandes manifestações.

Todavia, a “grande massa” da classe média que foi para a Avenida Rio Branco não tem uma direção política muito clara. Não foram exatamente no “Ato Unificado pelo Passe Livre”: foram antes no “white monday” dizer… “yes, we can”. Para eles pesa mais o sentimento genérico de insatisfação, esse tipo de lacerdismo latente que volta e meia toma o Rio de Janeiro. São manipuláveis por discursos ambíguos que exaltam uma suposta revolta da sociedade civil contra “os políticos”. São discursos que identificam a política como “sujeira”; discursos higienistas e puristas que dão voz aos sentimentos políticos mais profundos da cultura política burguesa, toda ela impregnada de teologia-política. Nessa cruzada contra a corrupção e contra “os governantes”, estes discursos, travestidos ironicamente na máscara anônima do quadrinho “V”, clamam por vingança contra a “classe política”, eleita democraticamente. Apesar das críticas ao sistema liberal representativo, e com todos os problemas da democracia brasileira, não podemos deixar de lutar por ela. Assim, sob a máscara pintada da rebeldia, a grande massa da classe-média encontra seu equilíbrio histérico para a defesa direta e sem culpa de seu interesse de classe. Os gritos de “Fora Dilma”, embora não tão presentes assim, dão margem para esta reorientação proposital do rumo das manifestações. Assim, não é de se estranhar que entre os gritos contra a corrupção, também os gritos de “sem partido, sem partido” foram entoados. Em alguns momentos, os manifestantes forçaram os partidos presentes a abaixarem suas bandeiras, com aplauso inclusive da grande mídia louvando tal orientação. Como sabido, muitas bandeiras de partidos socialistas foram quebradas e jogadas no fogo também. A grande massa da classe-média que foi às ruas vestiu-se de branco, pintou a cara de verde e amarelo. Não por acaso a expressão repetida por muitos o “gigante acordou” faz justamente alusão ao nacionalismo, tomando a expressão do hino nacional. A pergunta é: que “gigante” seria esse?

A grande mídia, em aberta campanha eleitoral, conduz a “pacificação” da manifestação contra o Governo Federal, mas não me surpreenderia se, de uma hora para outra, transformasse radicalmente seu discurso insuflando a violência. De fato, o clima de terror e violência instaurado pelos “vândalos” ou “bandidos saqueadores” é manipulado pela grande mídia neste sentido. Neste caso, é importante compreender como a “pacificação” das manifestações é acompanhada pelo terror midiático, como duas faces da mesma moeda. Neste sentido, não devemos estranhar também se tivermos a impressão que o discurso da mídia ou de muitos de seus intelectuais pulem de um lado para o outro de forma aparentemente contraditória e bipolar. Nesta conjuntura é sempre bom relembrar que os grupos mais reacionários estão disputando as manifestações visando um improvável impeachment da Dilma – lembrando que neste caso assumiria o vice-presidente Michel Temer, do PMDB.

A campanha eleitoral já começou. A grande mídia já tem seu candidato: o tucano Aécio Neves. Parece plausível supor também que Eduardo Campos, do PSB, ameace uma candidatura independente para pressionar a base do governo do PT. É notável o canto da sereia mobilizado pelos jornais visando a cooptação do Eduardo Campos, para dividir a base do governo. Por outro lado, a Marina Silva disputa pelo STF para garantir o registro do novo partido Rede. O ministro Gilmar Mendes expediu uma liminar contra o legislativo, endossando as recentes disputas entre o Supremo e o Legislativo. Para a oposição do PSDB e DEM, a candidatura da Marina Silva é vista como estrategicamente fundamental para tirar a popularidade da presidente Dilma. Assim, não devemos achar estranho que todos os discursos estejam confundidos numa voz aparentemente uníssona. Afinal, que político nesta conjuntura se colocará contra as manifestações? Até o comunicador Luciano Huck é a favor das manifestações…

Mas todas estas avaliações críticas não tiram da cena o relevante debate político que está sendo realizado em todo do Brasil pela melhoria do transporte público e pela garantização deste direito universal que é a mobilidade e a locomoção democrática pelas cidades – direito que deve ser garantido para todas as classes sociais. A redução das tarifas declarada ontem pelas prefeituras do Rio de Janeiro e São Paulo, bem como de outras cidades pelo Brasil, foi uma vitória do MPL e dos movimentos sociais. Uma vitória limitada sim, mas foi uma vitória do campo democrático que luta para a ampliação do processo de democratização do país. Entretanto, cabe avaliar se a grande massa da classe média, afeita ao discurso indefinido contra a corrupção, estaria disposta a fazer um verdadeiro debate nas ruas em favor de um transporte efetivamente público. Isso significa que não basta que a prefeitura e governo estadual paguem o aumento, com redução de impostos, etc. Seria necessário rediscutir os contratos com as empresas e seus monopólios, visando diminuir a margem de lucro exorbitante dos empresários. Por outro lado, porque não, isso poderia conduzir um debate sobre a estatização do transporte público. Pergunta é: a “classe média cara-pintada”, afeita ao discurso contra “os governantes”, de forma genérica, endossaria esse tipo de discussão?

Acredito ser preciso firmar que a principal bandeira unificada das manifestações deve ser o debate sobre o transporte público e a universalização deste direito para todos. Isso implica não apenas a redução dos preços, ou a melhoria da qualidade do serviço prestado, mas uma reflexão profunda sobre a política de transporte encampada em nossas cidades. Firmar esta bandeira é uma alternativa para a integração de diferentes interesses em cena nas manifestações, ao passo que funciona como um antídoto contra a manipulação política.

 

 

Amor novo

oh, grande amiga,

se te esqueço

é pra manter fresco

teu ardor

 

mal sei teu nome

te desconheço

meu amor vive da fome

de tempo,

ofício de historiador

 

sim,

deixar-te estranha

arte da intrusa entranha

que me faz constante amador

 

me diz quem sou

que não?

sou nem fui

te perco, deslembro,

meu exílio é o esquecimento

não-lugar de meu fervor

Carta da manga

oh, meu amor

chegamos à alegre verdade

falamos de xixi e cocô

com toda intimidade

 

mas amor sem ilusão

precisa de falsidade

pra rir sinceramente

de toda eternidade

 

só a magia da profanação

constrói a habilidade

de tornar sagrado um pinico

ou coração

ou tudo que se tem vontade

 

é dessa estranha superstição

que eu visto essa saudade

quando convém a ocasião

saboreando a morte e a multidão

na praça da mocidade

Versos que me fizeram

Queridos amigos e amigas do Pontuadas,

Com muita felicidade encaminho abaixo o link para a compra do livro “Versos que me fizeram”, com ilustrações de Pedro Victor Brandão, lançado neste mês de abril de 2011. Obrigado à todos e todas pelas palavras de carinho e apoio ao longo de todo este tempo! 

http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=452&idProduto=467

Tudo muito bom

na grande roda

o fim é o começo

a gente é o que deixa de ser

a morte eterniza a vida

bastão de corrida

não tem hora marcada

me dê sua mão espalmada

tudo é passagem que fica

quem não pega do outro

um pouco de vida

o barco de tudo é o mesmo

tudo se modifica

Poema revisor

meu poema de contracapa

não deve dizer nada

vazio da morada

barulho da calada

 

meu poema do contra

mundo que vive em cada

quanta guimba pisada

estranho que estrada

 

contra meu

lugar que não me guarda

       palavra que me lavra

       terra que me larva

       lama que me lava

diz o que não sei

se esconde atrás da capa

Vida que sabe

 

cada um tem sua verdade

um lugar onde se engana

quem nunca fez do corpo ou da cidade

uma cilada que arma a cama

           

por mais duro que seja ouvir essa verdade

certo é aquele que a proclama

porque na vida não pode haver dor de vaidade

maior que o amar da funda gana

 

por isso sempre do lugar que arde

eu tiro uma nova dama

não existe pra mim saudade

que não seja uma cabana

 

vou curtir a vida que me sabe

porque sou eu que ama

Cama

 

quando a noite cair

e o silêncio cantar

vem a solidão me chamar

e o teu cheiro subir

 

deixo o sono fugir

mas não perco o teu ar 

das plantas

 

queria ser como uma planta

as plantas pensam sem pensar

falam sem dizer

as plantas morrem morrendo

com gosto de vida

como é bom ser um jardineiro

e poder tocá-las todos os dias!

 

todas a manhãs,

me debruço na arte da jardinagem

todos deveriam dedicar-se ao aprendizado dos jardins

e aprender a ouvir as plantas

e falar o seu silêncio

 

o tempo das plantas é o instante

como o nosso

tempo humano

amanhã vem outro dia

e todos morrem como as plantas

 

sou jardineiro de trabalho

minha existência é um pouco planta

eu pego sol e tomo água

sinto os meus pés na terra

eu sou o que me é

jardineiro de mim

 

as plantas, todas elas, são plantas

e sabem o que são

pois não é preciso saber o que se é para ser planta

as plantas sabem para onde vão

e de onde vieram

porque não é preciso saber nada disso

dentro cada planta existe um jardineiro

na arte de ser o que se é

 

estão vendo o casal ali na outra calçada?

o rapaz com o violão e a bailarina de saia cigana

eles também são como as plantas

quando dançam e tocam seus instrumentos

ou falam sua língua estrangeira

 

penso sem pensar

porque sei que todo o pensamento

é um pensar de si mesmo

pensar é pensar o pensamento

pensar pensando

 

com os jardins aprendi a arte de pensar sem pensar,

de dizer sem dizer

de partir sem partir

de morrer sem morrer

porque não morrer é morrer

não partir é partir

não dizer é dizer

 

com as plantas aprendi

a ser um poeta preguiçoso

que desdenha da própria poesia

porque vale mais ser jardineiro

e ouvir as plantas

sentindo a terra úmida entre os dedos do pé

Viva Seu Evanil!

não conheci Seu Evanil

nunca ouvi sua voz

desde que o silêncio

em seu peito floriu

o céu das noites uma e mil

perdeu mais um albatroz

 

não tive a chance de um trago

com Seu Evanil

nem pude ouvir suas histórias

talvez levasse muito tabaco

e no braço um cantil

para amolecer a memória

 

minha flor chorou

quando ele partiu

e lembrou dos tempos de glória

a voz poderosa então zuniu

cantando Seu Evanil

no palco por mais uma hora

 

foi assim que se despediu

e ao céu retornou mais um albatroz

desfez-se no chão seu exílio feroz

talvez ao som da Bahia

ou pintando o Brasil

 

não conheci Seu Evanil

mas agora escuto sua voz

pelas lágrimas da minha flor

ouço o clamor poderoso

de mais um crooner do Ary Barroso

que já não mais vive entre nós

No pé da vida

 

no pé de ouvido

nada se olvida

 

mesmo quando um beijo amigo

não lhe acende a vida

no pé de ouvido

tudo se olvida

 

esqueço o beijo

no pé da vida

onde tudo é ouvido

e a vida olvida

O Serra e a serra

Ainda no primeiro turno, quando as pesquisas mostravam o crescimento constante da Dilma na corrida presidencial, insinuando a vitória no dia 3 de outubro, lembro de ouvir o comentário de alguma alma infeliz: “agora a Dilma só não é eleita se descobrirem um escândalo envolvendo ela com o Bruno, ex-goleiro do Flamengo”. Realmente, naquela conjuntura, a “grande mídia”, com seu mínimo jornalismo, botava os caninos pra fora, em busca da calúnia fantástica – algum furo que fosse que pudesse ser manipulado eleitoralmente, alterando o cenário da disputa, francamente favorável à candidata do PT.

Entretanto, o triste comentário atirou no que viu e acertou no que não viu. Isso porque ele considerou de antemão que qualquer forma possível (ou impossível) de associação com o caso do ex-goleiro do Flamengo significaria diretamente algo imoral, repugnante, ou, no mínimo, desmerecedor de votos; quer dizer, como um absurdo tão inaceitável – e talvez o maior deles, levando em conta a novela dos sensacionalismos recentes – que apenas algo assim poderia redirecionar a escolha do eleitorado brasileiro.

Todavia, ao contrário do que poderia se imaginar, não vem sendo desta maneira que alguns eleitores, (des)informados pela política do mínimo jornalismo, vêm se comportando. O que mais dizer da estranha sensação que tive ao ler ontem à noitinha, estampado no vidro traseiro de um taxi, a palavra de ordem: “Serra nela!” No Brasil, a serra ainda convence parte do nosso eleitorado. E se é verdadeiro que vivemos no país da tolerância, um país feminino, por assim dizer, pelo qual nós ainda acreditamos e lutamos, devemos estar atentos ao ódio contido que vem sendo vastamente promulgado pela campanha do candidato tucano, canalizando os afetos mais conservadores da sociedade.

O Brasil tem essas coisas: a demonização moralizante do ex-goleiro do Flamengo, encampada pelo mínimo jornalismo, mantida na superfície dos acontecimentos, reduz toda a complexidade do crime a uma criatura malvada e impiedosa, deixando de contribuir para uma verdadeira discussão sobre os problemas de nossa sociedade. Convive-se, assim, em harmonia com tudo aquilo que possivelmente levou o jogador a se envolver em tal barbaridade, pois na prática, muitos ainda são insolitamente coniventes com tal absurdo. Mas para a campanha do candidato tucano, parece não haver contradição em tal avaliação e tudo se resolve no péssimo jargão: “serra é do bem”.

Libertem a beleza!

os versos feios são tão lindos

como os versos lindos

e cada rima, mesmo torta

vive de camareira

abrindo porta

 

o verso vagabundo

vive aberto à todo o mundo

mas não deixa de invadir

o sertão profundo

que habita cada horta

 

quem nunca chorou vendo novela

ou se embriagou numa birosca

mantém presa numa cela

a beleza ou a donzela

vai contra o vento que a vida vela

ou que o tempo sopra

 

o poeta viu na pedra uma roda

criação que não conforta

se encontra na fresta da bela

vive no que brota

vadia mais uma quimera

mastiga a folha da coca

Lugar fora

copo vazio da cachaça

metade que não se completa

mas segue aberta

como a manhã na praça

 

amor que odeia a plenitude

se deixa líquido

mas segue anfíbio

em meio à tanta concretude

 

violão vadio da morada

esquece o quarto

e segue o prato

que a vizinha debruça na sacada

 

beleza vazia

tudo desfaz, se deixa e mia

quando chega a vez do corte

tudo passa gato

e segue a paixão da morte

ou madruga na padaria

 

ai, o baralho lindo foi guardado

o cigarro proibido

o bingo fechado

mas segue a fila da loteria

 

espera da aurora que não chega

maravilha negra que perde a hora

me entrega a sua coda

            que a vida relampeja

 

Boca

É noite

Beijo no vidro 

Espelho

Banheiro

Escuta o ruído

Fagote

Vidro de grito

Desejo

Morcego

Corpo moído

Resolve

Batom doído

Relampejo

Beijo

Boca no vidro

Absorve

Amor dolorido

Vesgo

Mesmo

Adeus no vidro

Toque

Dia poluído

Adeus e beijo

Desço

Colírio

Toque

Desabrigo

Azulejo

Beijo

Vidro

Corre

 

Batom

Uma beleza

naquela noite

todas usavam vestidos

mas ela estava de jeans

Vida ao artista

 

não foi a bebida,

nem os becos de rua,

nem os arcos da lapa,

nem por acaso o amigo,

nem o beijo à distância,

nem o dinheiro bem pago,

nem o moribundo do chão,

nem a noite de lua,

nem a grande obra,

nem o sereno formando-se,

nem a feiúra de tudo,

nem o calor antes cedo,

nem o frio mais tarde,

nem a roupa da moda,

nem a televisão barata,

nem a tourada do mundo,

nem o sangue berrado,

nem a palavra de Deus,

nem a rebeldia do velho,

nem o sorriso criança,

nem o romper do palhaço,

nem o primeiro e nem o último amor.

 

não foi a lata de lixo,

nem o ponto de ônibus,

nem a espera infinita,

nem a caminhada vadia,

nem o dia seguinte,

nem um pão com manteiga,

nem a lembrança da família,

nem a casa de volta,

nem a saudade do irmão,

nem o cachorro pidão,

nem um verso fundamental,

nem o melhor violão.

 

não foram os aplausos do público,

nem o perdão do país,

nem o exílio no ar,

nem o filho crescido,

nem a tia querida,

nem uma canção dos Beatles,

nem um livro de contos,

nem as fogueiras e as bruxas.

 

não foi uma caverna,

nem uma montanha,

nem uma ladeira romântica,

nem um caixão aberto.

 

não foi o trabalho honesto,

nem o cumprimento de um desconhecido.

Amor de bêbado

                   

                    meus passos perdidos

                                       nunca perdidos encontro

                                                                         futuro

                                sustento da minha história

                                       força presente da

liberdade que me escolhe

           no avesso

           o inverso da saudade que me move

                                               meus passos perdidos encontro

                                                        que me perde e fica

                                                                              porque foi

                             mas não se esquece

                                    de voltar

ai, intruso que traz

                   sentido arruma a casa

                              guarda

                         o chão           arrebenta o futuro

           que eu te esqueço

                           para não ter que te deixar

  perdido

           meu passo me acha

                     corpo que fica cachaça

 

      calçada para me deitar

 

Náugrafo

o mar ensina o corpo que se lança

e diz até onde fica cada borda

n’um mergulho eu vivo o peito na balança

e me abrigo no calor da sua horta

 

por onde passo cambaleia a perna torta

e meu coração que desceu até a pança

o mar me trouxe a seguir a sua dança

agora é tua a janela de minha porta

 

a vida leva e trás e nunca cansa

como a paixão que me entorna

o tempo passa e o mar me entrança

na lambança do infinito que me sobra

Superstição conveniente

meu amor está no mito

o belo me desencanta

do calor do nosso atrito

berro de mim o Egito

e todo credo

que me tranca

 

meu amor está no grito

berço da minha anca

do torpor do nosso rito

levo em mim o minto

e todo riso

que me engana

 

meu amor está no zinco

teto chão da minha cama

do sabor do teu umbigo

abraço o desabrigo

e enterro o céu na minha pança

Grande amor

meu amor não cabe

nem vira cabide

não existe abade

que o delimite

 

nem Marques de Sade

sabe como insiste

meu amor que abre

e invade

como quem decide

pelo o que não sabe

e que não desiste

segue no teu lábio

cego em todo acabe

vivo em todo existe

Escolha

mais um dia passa

e o tempo grande amassa

no instante

a sua pequenez

Sem-fio

em tempos de telefone celular

ninguém liga mais para a casa de ninguém

e prefere a solidão da grana que não tem

pra ficar com o tchau da nova Telemar

Alento

mesmo que não seja hoje

que você leia este presente

o futuro não chega ausente

para quem o coração ouve

 

um, dois anos depois, ouse!

que tempo está sempre na mente

e não há dia que fique doente

que de noite também não repouse

 

qual riso não rima no dente?

quando foi que alguém não pode

cansar de tanto Ocidente

e sair para onde que fosse?

Inversão

chegou a noite

e o medo do corte

faço prazer

de toda sorte

Turista

não se preocupe,

meu amor,

que minha câmera só captura

a parte que não é tua

De tudo que é sólido

das pessoas

tenho o amor que é ar

que é meu e do mundo,

das plantas, dos bichos, e de tudo,

do sol e do mar

 

das pessoas

o que eu tenho nunca é meu

é a reconquista de cada instante,

do amor

que como o ar me invade,

e me corre por todo o corpo

 

num parto volto

        revolto

            envolto de instante

 

num mesmo choro da vida

que é sempre primeiro e último

choro

 

                  berro-choro

         desse ar que me chupa,

me invade, me expulsa, me estupra

meu

          pulmão

       saber sabor

 

de ti tenho apenas o amar

que é amor e ar

e não apenas,

mas possibilidade de te encontrar

e poder ser um convite

ao teu respirar

Traveco

na moda carioca

Deleuze é o Gabeira da filosofia política

e usa tanguinha na praia do arpoador

de noite vai no cone japa, Leblon

janta escondendo a capa

pó de arroz agora é o televisor

batom

na manhã, vai manteiga light no café

filantropia da gordura

com caridade

e com uma havaina no pé

esconde  a botina dura

                        e diz amizade, zap

azarando as menininhas de bundinha empinada

que estudam na católica pontifícia

e que amanhã envelhecem com ou sem missa

e transfimutam-se em grã-finas empanadas

cadavéricas amadas

a bundinha vira narina

empinada, pavimentada ex-bundinha

Oscar Wilde old wild west é galo de rinha

e diz a coca-cola, da higiene, do shampoo,

massa, mesa, missa, medo, milícia, malisa, narina

meio-ambiente higienista

limpeza étnica

ai…

e o Vascão vai descendo devagar

ai, ai, meu coração!

Fight the Power

fight the power, Falstaff!

fight the fast staff

fight, Falstaff, fight!

 

fight the fear

with a funny face

fight the fast

with a fat embrace

 

fight, Fastaff, fight!

fight the fast staff

Prefiro viver

ai, meu pessimismo de análise

não ganhe do meu otimismo de viver!

e se esse pessimismo de viver me hemodiálise

vai canário!

um otimismo na análise eu vou fazer

Ordem do dia

era preciso ser tanta

e o tempo vai

como passa o trem

dinheiro, obrigações,

cachorro e regar as plantas

a vida corre e

tudo isso me detém

 

era preciso ser santa

mas o tempo vai

e o prazer muito convém

no convés do desejo

amor, eu quero nossa manta

e correr com a vida

a liberdade que sou refém

 

o que faz mais um dia

depois de outro dia?

onde está o que eu quero?

se morrer, então, não adianta

vai e me encanta

que eu vou também

 

cachorro, roupa, telefone,

era preciso ser branca

uma velha sem pelanca

e se deixar ninguém

 

o tempo passa

como vai o trem

e vou seguindo

teu cheiro me levanta

despertar

mas não é você, nem ninguém

eu quero ser minha

e tudo isso me espanta

me lança

mas de feitiço não vou viver

 

vou te amar como nunca

e não vou te esquecer

te faço minha alavanca

me espanca,

mas preciso ser

Pensamento de ontem

e minhas pernas andavam

pois andar é o que as pernas fazem

como o rio que corre para o mar

ou a flor que flori e murcha

pois correr para o mar é do rio que passa

assim como passa o tempo

e florir e murchar é da flor

e de toda flor

que colore e murcha

 

e se fosse feito de pedra

não andava,

não corria,

não floria, nem murchava

seria o silêncio

como minha boca feita de pedra

e minha voz de areia

que o vento leva para o mundo

pois é da voz ser areia

e ser levada pelo vento

 

hoje, ao acordar

cheirei antes de ver

e quando procurava o teu cheiro

senti o cheiro do meu próprio corpo

que era gostoso e forte

como gostoso e forte é o cheiro da carne viva

e me senti vivo e bem morto

mas não tive tempo para pensar

porque é do pensamento nunca ter tempo para si

e de repente perceber-se com as pernas na frente da cabeça,

o murchar na frente do colorido da flor,

ou se esquecer preso pelas margens

quando o rio já é envolto todo de mar

pensamento margem

 

já é verão na minha pele e na minha cidade

que chove abafada pelos meus cantos

e acumula no poço dos meus olhos úmidos

essa irremediável cegueira de sede de se entregar

e de colorir e murchar,

de correr, de passar,

de mergulhar no mar e lançar o corpo

como lança-se um copo d’água,

sem pensar, nem dizer

senão o silêncio das pedras

e buscar a cumplicidade das tuas orelhas

para gritar com meus sussurros espumantes

a vontade de viver e de te amar

como ama-se a flor, o rio ou a pedra

ou quem percebe-se sendo e deixando de ser

porque é de todo ser o deixar de si mesmo

Corra

o nosso amor de rua

é aquele que procura

se perder

e se encontrar naquilo

que não dura

a cidade dura

nosso amor perfura

se beber

e se lançar naquilo

que desarruma

teu corpo arruma

tiro o armário

da maquina de escrever

despertar

carro, a rua urra

nosso amor apura

se comer

e se jogar altura

rasura, tuas pernas, tesoura

correr

e se pegar na unha

rascunha

nosso amor sem armadura

prazer pendura

Minha Emília

a minha Emília

ri sem honraria

de dia padaria

de noite hospedaria

 

a minha Emília

na casa é alegria

quando almoço porcaria

quando dorme roncaria

 

tentem alcançar a minha Emília!

ai, ela desapareceria!

 

a minha Emília sobe nas paredes

e do teto pularia

a janela é a porta

por onde minha Emília entraria

 

como é cara de pau a minha Emília!

para dizer verdades

ela mentiria

 

os homens ficam de cara

com a beleza da minha Emília

“Quanta liberdade e fantasia!”

– disse o vovô da família

 

o corpo cheio de magia

a maior infantaria

onde está o caráter

da minha Emília?

Poema para Joana

                           Meus amigos e amigas, fica aqui o beijo pelo aniversário de três anos de minha querida sobrinha. Este poema foi escrito no dia que ela chegou junto aqui no mundo! Um abraço pra todo mundo pela alegria das crianças!

                         

 

 

                                (Rio de Janeiro, 1º julho de 2005)

 

            calçaram meus pés

            vestiram minhas pernas

            pensaram minha cabeça

            sentiram meu coração

            quando eu nasci, eu já existia

            quando eu morrer eu serei eu mesma

 

            mas calçaram meus sapatos

            vestiram meu vestido

            pensaram minhas idéias

            sentiram meu desejo

            eu já morri antes de nascer

            ah, se eu pudesse escolher,

            eu não nasceria

            ah, se eu simplesmente pudesse,

            eu não poderia

 

            sim, eu terei teus pés

            eu terei tuas pernas

eu terei tua cabeça

eu terei teu coração

se eu não fosse tua

eu não seria eu mesma

 

mas sou tão frágil

mas sou tão forte

eu vou explodir

não me contenha

eu vou morrer, eu vou morrer

não se arrependa

eu não me arrependo

 

eu serei tua

eu me amo demais

obrigada por tudo

mas tudo se desfaz

adeus, vou nascer

o mundo me chama

que delícia louca viver

adeus, adeus, vamos morrer

Na combi mental

a minha morena é tão cheirosa

que vira cinema na minha prosa

fez o poema mais uma coda

nossa merenda-foda um novo epistema

Irritado

Escute uma vez mais, sua cocota:

afeto não é moeda de troca!

 

A andança de Ignácio Borges

Havia andado muitas léguas e réguas pelas ruas da cidade e o chinelo desgastado já comia as suas carnes. Não havia mais diferença entre a pele, o calo e borracha. Quando uma idéia fixava-lhe a mente, o único remédio era andar. Ignácio Borges fora acometido pela idéia da ciência. Nem mesmo o sonho de guardar nas redes um maracanaço, que algumas décadas atrás o levara a caminhar sete meses seguidos; nem os belos seios de tia Zazá, que em outro tempo o lançara dos pampas até os as ruínas Tiwanacus: nada disso parecia tão doloroso e insolúvel como agora. Os relógios não marcavam mais as horas, as roupas não marcavam mais a moda, e ninguém sabia direito há quanto tempo Ignácio Borges andava. E a ciência foi ganhando um espaço maior que o universo. Idéia fixa que estava em tudo que ele via.

Até quando numa tarde fora atomado pela cura da memória viva e a lembrança quente do velho bruxo o fez despertar da incansável caminança. Sentou e o joelho que não dobrava há muito tempo estalou um barulho de milhares de ossos, desmontando suas pernas no banco da praça. Desmontou como um ventríloquo sem vida. O Largo do Machado exibia um exuberante chafariz, com suas exuberantes crianças e Ignácio Borges pôs-se a pensar no velho amigo que, já fazia cem anos, morrera de uma incurável doença em sua pequena chácara um tanto mais acima no Cosme Velho. Só mesmo a profunda bruxaria do amigo podia desperta-lhe deste terrível sono. Contemplava a amizade e também os pequenos que mergulhavam e se banhavam no chafariz como grandes velocistas, deixando a desejar até mesmo o mais precioso dos Popov, que naquelas águas morreria mesmo afogado. Exibiam seus magníficos pequenos corpos que submergiam das águas em pulos alegres. As idéias são como paixões, pensou. Só um novo amor o fazia esquecer.

Ignácio Borges chorou uma lágrima de madeira. Via o tempo da vida abatido pelos olhares de medo dos transeuntes que cercavam a praça. E assim voltou para a mesma idéia da ciência e achou ruim. Tudo aquilo fez um tremendo sentido e ele não perderia mais o fio que pulava do emaranhado da realidade. O olhar da ciência não era mais dele, mas de tudo o que cercava aquela tarde, e espreitava por cima dos ombros das pessoas, das coisas e de toda aquela pintura imperativa, um pavor inquisitorial que exalava busca de verdade, busca de verdade única – medo de morte. Os olhos que cercavam o chafariz apontavam suas objetivas como armas fotográficas. Por fim, retratavam o pavor de si mesmos. Pavor de outro invertido na captura da espontaneidade humana. Roubavam-lhes as almas. Colonizavam corações.

Ignácio Borges, então, olhou para o texto de seu asqueroso pé. Conta na história dos Mayanambás que a língua escrita era imprecisa e fraca e que as melhores palavras toda a gente encontrava mesmo no próprio pé. A leitura dos pés dizia do exílio do tempo e da raiz da terra. Os pés de Ignácio Borges sempre de tudo tinham muito a dizer. Catou até mesmo alguns vermes a perguntar-lhes o que sabiam das digitais e linhas de sua sola negra.

– Meu Senhor – respondeu-lhe um longo verme gordo -, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

Nem se incomodavam com aquele chulé de asfalto. A ferida era grande e feia como um cancro que tudo podia engolir. Talvez o silêncio dos vermes fosse também uma forma de roer o roído. Mas quando se tem um fio e a toda gente começa a puxá-lo, este nunca mais volta para o novelo – isso ele viu no dedo mindinho -, porque se alguém morre, outro vem e começa puxá-lo de novo, e de novo sempre aparece alguma outra mosca – disse o dedão do pé -, de modo que não há sopa sem que caia uma mosca e que, portanto, é melhor engolir sopa com mosca e tudo: melhor que não comer e deixar no prato uma grande festa de moscas – ponderação final, ponderação de dedo médio. Mas, o que parecia dizer este grandioso ensinamento da política, a verdade imperativa da ciência parecia negar e, cada vez mais, esta se incomodava com as moscas da praça. O calcanhar de Ignácio Borges alertava-o para essa questão ontológica do mundo secular. Também Aquiles ouvia muito seu calcanhar. A lança que feria também curava. Queriam, pois, uma sopa pura e um chafariz sem meninos negros nadando. Tinha alguma coisa de colonizador na ciência que doía no coração de Ignácio Borges, alguma coisa que lutava pelo seu adestramento. Tudo o que não era o grande mesmo repetido parecia como algo estranho, algo natural e virgem; algo nativo posto a servir livremente a razão divina. A ciência dizia de um direito de prover-se do outro.

Fervia a mente de Ignácio Borges. A praça parecia um tribunal como aqueles do raquítico Franz, que tanto se identificava com os animais quando deitado na relva abrindo mão da vergonhosa retidão humana. Ser humano, bicho de coluna em pé! Era preciso que todos deitassem no chão para ver as estrelas. A praça esperava a confissão dos peixes. Ah, como na primeira missa… Depois lembrou das aulas de história quando menino na Terra do Fogo, em meio de enchentes e alagamentos que faziam o cemitério boiar e os caixões virarem barcos. Lembrou da amiga prostitua que morava em Sevilha. E do cachorro companheiro que não morria – já ia fazer trinta e quatro anos! Os amores, como as idéias, nos levam pelo tempo. Nada como a bruxaria da história e a loucura da lucidez!

Tinha alguma coisa no olho inquisidor da ciência que deveria ser canibalizada. Uma sopa de antropólogos. A grande festa das moscas! Confraternização geral. O terror do Zé do Caixão também tinha um quê de carnavalização do mundo. Cancros, vermes, baratas gigantes e carne humana. Fome. Indiana Jones, bispo Sardinha, fio dental. Comer Montaigne, comer Montaigne, comer Montaigne…

 

Vida

 

é sambar

ou sambar

 

Geladeira mundo

não acredito na manteiga,

na garrafa de refrigerante,

nem no pacote de leite UHT

 

não me serve

a ilusão estática

dos eletrodomésticos,

das latas,

dos frios,

das pastinhas, ervilhas,

madrugada, tomada, cozinha

 

minha lucidez

não é consciência de tomates,

nem a memória das cebolas,

nem o peso dos alfaces

 

preciso ouvir dos

teus olhos

nos meus

meus olhos teus

meu corpo instante

teu mais tempo meu quando instante

454 anos da deglutição do Bispo Sardinha!

                                                queridos amigos e amigas repugnadores da touca, comemoremos juntos a grande confraternização geral! Este é o mês da sardinha frita. Vale sardinha no almoço, sardinha no jantar, sardinha com suquinho de laranja no café da manhã! Corre por aí uma bocada de sardinha frita no bistrô da casa dos jesuítas. Os feirantes fazem a festa com o preço da sardinha: a expectativa é de uma aumento de quase 40% no preço do bispo, quer dizer, do bicho. Melhor forma de comemorar os oitenta anos de manifesto antropofágico não há. Quem tiver um padre a mão, coma-o!

 
 
 

 

 

Manifesto Antropofágico

 

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi, or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.

Queremos a Revolução Caraiba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem n6s a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.

A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as girls.

Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre. Montaig-ne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Caminhamos..

Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará.

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

Só podemos atender ao mundo orecular.

Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.

Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores.

Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros.

O instinto Caraíba.

Morte e vida das hipóteses. Da equação eu parte do Cosmos ao axioma Cosmos parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.

Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.

Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.

Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.

Catiti Catiti

Imara Notiá

Notiá Imara

Ipeju*

A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.

Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comia.

Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso?

Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César.

A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue.

Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia.

O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa.

É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.

O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.

Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz.

A alegria é a prova dos nove.

No matriarcado de Pindorama.

Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.

Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.

Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.

A alegria é a prova dos nove.

A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o modusvivendi capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.

Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo.

A nossa independência ainda não foi proclamada. Frape típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte.

Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama.

OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha.” (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)

* “Lua Nova, ó Lua Nova, assopra em Fulano lembranças de mim”, in O Selvagem, de Couto Magalhães

O que fere cura!

teu beijo

me fez ser Dom Quixote,

com meus versos

volto ao Sancho Pança

 

como aqueles

que da campa fazem o berço

e se curam

com a própria lança

No chão

esse amor

a gente aprende na cidade,

caminhando

como o tabaco

se aprende no pulmão

    

            esquina

            nossas pernas

            multidão

 

a cidade é mais balão

que o cinema

e esse amor no chão

mais poema

que os livros d(a)e estante d(e)a televisão

Mundo propaganda

estão ganhando dinheiro

com os meus olhos

burra vigília

mesmo sem óculos

       policia

DADÁ

                                            Caminhando de braços abertos o pontuadas também caminha de braços dados. Neste caso, braços dadá dados! Vale conferir a videoarte dos jovens fotógrafos Pedro Victor Brandão e Marina Pachecco. Vamos aos drinks de Vilém Flüsser que daqui a pouco vai me dar uma fominha de bispo sardinha…

¡ ! ¡ ! ¡ – Suíte Dadá 

Marujo

Foram sinceras

as lágrimas do amigo

que se despedia 

com medo

levava o porto consigo

as águas, os ventos, os mares

ninguém sabia direito

o que aconteceria

 

No adeus marinheiro

nem mais a morte,

nem mais o corte,

ele simples partia

e partido levava o amigo

que se dividia

metade morava no peito,

outra, na poesia

Duelo

O meu olhar é uma manta e, por favor, me diga que está com frio.

“Calor, não é?” Eu morria; meu reino pelo vestidinho.

“Pois é. É calor que não acaba mais!” Foi o máximo que todo o meu maquiavelismo galanteador conseguiu naquele momento. Já não sabia se o calor vinha do sol ou se eu realmente tinha olhos flamejantes. Eu amava e queria desaparecer. Não lembro muito bem quanto tempo, mas fiquei ali, e o silêncio também ficou, como um barulho ensurdecedor. Eu queria dizer da beleza das mulheres, de como é bom ser homem para amar as mulheres e que ela era a mulher das mulheres. Mas disse da chuva que chegaria ainda de noite. Era então melhor desistir de tudo. Despedi-me decidido. Tinha compromissos, trabalhos, estudos, deveres, promessas, podia chover. Não consegui sair do lugar.

“Você vai, ou não?”, perguntou ela, impaciente e alegre, olhando-me nos olhos, um sorriso de escárnio, e as mãos na cintura. Era tudo só para mim.

“Vou”, hesitei decidido.

“Então, até mais!”, e me deu um beijo cheio na bochecha que eu não esperava, ela não esperava e eu morria de novo. A minha cabeça mal tinha processado a informação direito e quando alguns segundos depois ela chegou, chegou com tudo. Era alerta vermelho e o corpo pulsando, um circo dos horrores, e eu ainda sentia a umidade fresca dos seus lábios na minha face. Devo ter feito a cara mais estúpida do mundo.

“Nossa! Sou tão assustadora assim? Que horror!”

Mais uma morte. Era beleza demais. Uma faca no coração. Disse o que veio:

“Desculpe, mas você é linda!”, arrisquei. E fui embora marchando como um soldado, eu me sentia um máximo, meu reinado reergueu-se, eu escondia o medo. Não queria olhar de novo para ela, não devia olhar de novo para ela, mas olhei. Voltei como um pateta:

“Ah, já ia esquecendo…”, e ela me olhou com desprezo, do jeito que as mulheres olham quando amam e odeiam, “… isso aqui é para você”, surpreendi.

Ela iluminou-se: “Para mim? Um presente? O que é?”

“Não é nada demais”, menti: para mim era tudo.

“Ah, é um conto?”, disse ela meio na dúvida.

“É. Acho que sim. Eu fiz ontem de noite”.

“Para mim?”, ela exigia garantias.

“Claro”.

“Duelo”, leu o título em voz alta.

Eu disse que era dela, que ela lesse depois. E como nem um pouco boba que é ela perguntou se era um duelo de amor ou de morte.

“Tanto faz, acho que dá na mesma”, foi o que respondi.

“Então é um duelo de palavras?”, sugeriu.

“Talvez. Mas não só de palavras”.

“Obrigada”, ela sorriu, olhou ternamente para mim, dobrou com carinho o papel e guardou na bolsa. Era um charme precioso. E tudo aquilo só para mim. Nos despedimos de novo, desta vez muito naturalmente. Eu fui indo embora, não como um soldado, e também sem nada de reinado. Disse que não se preocupasse: era só um conto, nada mais.

Ela sorriu maliciosa: “E nada mais?”

Não precisei responder. Fui com o vento pela rua. Começava a chover. Era só um conto, e mesmo assim doía. E como gostoso doía!

 

(Rio de Janeiro, março de 2006)

Academia

o peixe morre pela boca

as paredes são de guelras

todo mundo é um aquário

também o gato tem o seu alpiste

        foca foca!

Média com pão

 

ilusão

é a minha obediência

sou eu a televisão

pode quebrar a minha

vidraça quebrada

pode sumir com a bola

que eu adoro

futebol de botão

Ligada no mundo

ligada

no mundo 

levava a casa

tinha pernas

na mochila

                        criativas

não precisava

                        que traziam

de parede

                        muita sede

o vento

                        a cidade

sua rede

                        não se mede

a cama

                        quando há

na camisa

                        querer da vida

liberdade

                        lucidez

sua língua

                        maior loucura

a rua

                        quanta coisa

meio quarto

                        pra dizer

até do pequeno

                        para calar

rato

                        no teu prazer

ficou

                        esse tempo

grande amiga

                        que não dura

O sonho de Ignácio Borges

Já não me importava mais a morte. Talvez por ser ainda muito jovem. Errei quantas vezes preciso e como queria errar muito mais e ainda tinha tantas coisas a errar. A solidão restava amiga e junto vinha o começo de tudo – já não me assustava. Também sabia que ainda haveria muito tempo e muitos começos de tudo e que esse tempo, todavia, era curto demais: já passou.

Era o cansaço que anunciava minha força. O “não” seco eu já ouvia como “sim”. Não fazia diferença. As janelas que fechavam eram outras que abriam. Se pudesse escolher, não escolheria. Eu seguia a vida do instante que não seguia. Era preciso respirar e ouvir, e não pensar muito não. Era preciso deixar de ser. Eu deixei. “Adeus, meu amor” – eu já não era preciso de nada. Ah… Mas a vida voltava e voltava. E como eu errava! Haveria de ter mil línguas e eu queimaria todas elas. Haveria muitas verdades, e eu negaria todas. Sempre há de haver um dia seguinte. Talvez por ser ainda muito jovem.

Eu não te queria minha. Não olhe para mim, me esquece e seja sua. Não pense em mim. Agora se passaram vinte, trinta, quarenta anos? Reproduziram-se a miséria dos seres e das coisas. Multiplicaram-se os mesmos e os outros. O espetáculo da alteridade. A solidão chegava e eu sabia que vinha o começo de tudo. Ah… Solidão! Mais dez, quinze, vinte. Quantos anos? Como quero viver! Como quero cantar! Eu tinha mil pernas e restava parado. Mas agora, não saio desta cadeira, não saio desta cama, não saio destes remédios. Eu haveria de ser tudo o que me fosse negado. Quem escolhe? Você escolhe? Existe alguma escolha? Se eu simplesmente pudesse, eu não poderia. Ah… Se fosse possível escolher, ninguém escolheria! Escolhi a escolha escolhida. O tempo é pensamento.

Mas agora sei, vou morrer. Não me importo. Talvez por ser ainda muito jovem. Errei quantas vezes preciso e como queria errar muito mais e ainda tinha tantas coisas a errar. A solidão restava amiga e junto vinha o começo de tudo – já não me assustava. Também sabia que ainda haveria muito tempo e muitos começos de tudo e que esse tempo, todavia, era curto demais: já passou?

Quebrando tudo!

Meus amigos e amigas, já estava mais do que na hora de associar a este híbrido espaço um pouco do trabalho do maestro e professor Itiberê Zwarg junto às oficinas de música universal na escola de música Pró-Arte, no Rio de Janeiro. Às vezes eu mesmo esqueço que já se foram mais de cinco anos…

Segue o endereço para o blog desritmificações do irmão de som Ricardo Sá Reston, que fez este brilhante trabalho de disponibilizar para todo mundo esse material. Obrigado, companheiro! Aproveitem bastante o som!

Caderno de Partituras – Oficinas de Música Universal de Itiberê

Marlene e o Sepulcro

Via-me diante de seu sepulcro. Em pé, com as pernas cansadas, os joelhos instáveis, um par de rosas entre os dedos e mais um par de sobrancelhas brancas e grossas que pulavam da minha cara. Sem mais angústias, sem mais Marlene, sem mais o que fazer, sem mais nada. Pode-se dizer que a morte, para Marlene, era a maior contradição possível de se imaginar. Marlene falava das coisas vivas, dos animais, das florestas e das baleias que deviam ser protegidas. Eu preferia ficar em casa vendo jogo de futebol pensando em qual doença ia me matar. Não sei por quê, mas com o tempo, tudo que um dizia e achava o outro sempre optava pelo extremo oposto. E como dizia, Marlene escolhera a vida. Para mim restava a morte. O que não imaginei foi que ela também morreria um dia. Isto permanecia para mim como algo incompreensível.

            Marlene era uma mulher que se afirmava como mulher, se vestia como mulher, andava como mulher, cheirava como mulher, ria como mulher, gozava como mulher, bebia como mulher, dançava como mulher, suava como mulher, ficava triste e carente como mulher, chorava como mulher, fumava como mulher, dormia como mulher, sonhava como mulher e no dia seguinte narrava todos os seus sonhos como mulher, achava que tudo tinha alguma ligação com o destino como mulher e ainda falava do significado e do enorme sentido da vida como mulher, tudo baseado no seu sentido materno espiritual de mulher. Devo admitir que era encantador. Mas para mim, não restava mais nada senão ser homem, e pior, ser um homem normal.

            Minhas sobrancelhas dizem que estou velho. Elas pesam sobre meus olhos, pesam sobre meu rosto e são brancas, totalmente brancas e grossas. Muitos dos poucos amigos que me restam dizem que estou velho. Um abraço, uma mão no ombro e um tapa na barriga, foi o que recebi.

 – Meus pêsames, velho amigo.

 – Marlene sim, ela sim era uma mulher.

 – Como pode a Morte levar um ser tão dócil e cheio de vida?!

 Idiotas! Para que servem? São como raposas, isso sim. Nos tempos bíblicos seriam todos mortos e jogados ao fogo.

 O sol abaixava. O calor nas costas diminuía. Uma suave luz amarelada serenava, tomando conta da tarde e dos ares do cemitério. Continuava ali, em pé, com as pernas cansadas e os joelhos instáveis e um par de rosas que morriam entre meus dedos. Incompreendido, via-me diante de seu sepulcro. E foi quando cocei uma de minhas sobrancelhas, que percebi que elas não me pesavam mais, que meus olhos não mais se escondiam por dentre seus pelos grossos e brancos. Por todos estes anos, foi como se carregasse sacos e sacos de batatas sobre minhas costas. Sempre tive as batatas, mas nunca me senti um vencedor. Para mim só restava a morte de um angustiado. Marlene era tão mulher e me beijava como mulher. Todos a queriam e a desejavam. Agora, a cruz que parecia carregar bem no meio da testa, sustentada por minhas sobrancelhas, se encontrava bem a minha frente, junto com a lápide de Marlene. Ali estava ela: a cruz, Marlene e as batatas. E junto com elas vinha minha angústia e todo aquele peso dos pelos grossos e brancos que na verdade não eram só das sobrancelhas, mas que também emergiam do meu nariz e da minha orelha.

 A luz da tarde pintava as cores e as coisas. Na minha frente estava minha vida, meu quadro. Tudo estava ali. Finalmente coloquei as rosas no chão para Marlene. Inclusive fantasiei uma pomba branca que pousaria bem no topo da cruz. Algumas raposas queriam assaltar as batatas, mas elas não me incomodavam mais e, cabisbaixas, foram embora. A pomba batia as asas, a angústia se desfalecia. Sentia-me leve como a luz da tarde, eu também serenava. Finalmente Marlene estava morta. Agora poderia amá-la sem mais nada, sem  mais o mundo batendo a porta. Agora poderia amá-la, num amor livre que voava. Minhas sobrancelhas grossas e brancas eram asas que nem asas de uma pomba pura. Prometi a mim mesmo um amor eterno. Toda tarde, naquela mesma luz, deixaria um novo par de rosas e retocaria meu quadro. Finalmente Marlene estava morta. Agora poderia amá-la. Eu vivia um amor de adolescente que fervia em minhas veias. Já faz uma semana que esqueci minhas doenças e parei de acompanhar o futebol.

 (Rio de Janeiro, março de 2004)

farsa falsa

escondo o medo

fingindo medo

para não ter medo

de me entregar

sem medo

do medo

Viva Zé Celso!

                             Salve, salve, Zé Celso Martinez! Façamos nossa tua lucidez. O pontuadas acertou o relógio que estava atrasado. O texto é de outubro do ano passado, mas agora que entramos de vez, abriremos nossas bocas e rabos: fica o registro do nosso Martinez!   

Texto de José Celso Martinez Corrêa pedindo a reparação de Canudos

Conversa

Emudeçamos,

e deixemos nossos corpos despreocupados

entregues à sábia conversa das barrigas

pedindo um ao outro

como se sente fome

            – e se come

ainda antes do café da manhã 

Ou ficar a pátria livre

E lá se foram mais de 1000 entradas… Saudades do nosso amigo Julio Costantinni, grande fotógrafo e humanista. Vale conferir o registro que se segue. Viva o cinema independente!

OU FICAR A PÁTRIA LIVRE – parte 1 de 2
http://www.youtube.com/watch?v=6SV0_tjJJSk

OU FICAR A PÁTRIA LIVRE – parte 2 de 2
http://www.youtube.com/watch?v=lD6e-zwk1ks

Mágoas de março

                     o poeta-irmão Bito escreve os seus quixotes no http://atestadodeobvio.wordpress.com/. Trago aqui seus versos. “Elementar meu caro Watson!”

 

tudo bem, então

o sol continua

vocês verão

Duas Vozes

Com um beijo eu te digo

            Não há espelho de vampiro

Meu desejo de ir embora

            Nem mais coelho na cartola

No calor do teu umbigo

            A cada amor que eu respiro

Eu respingo a tua cola

           Um espirro a toda hora

Percevejo o desabrigo

           E como fedo espremido

Caranguejo tua esmola

           Me protejo na gaiola

Teu sabor é de amido

           Meu labor é de bandido

Morango com graviola

Transporte-se!

Ah, como é bom transportar-se pela cidade! Amar as rodas, as pernas, os trilhos e os sonhos. Conhecer cada calçada, cada buraco e tijolo. Ver as vitrines tão belas e também as tão feias. Fazer amizade com as portas e janelas. Conhecer os cachorros e os pombos. Saber de todos os paralelepídedos: dos soltos, dos presos e dos voadores. Não esqueçamos de conhecer os esgotos e os postes e de dormir nos bancos de praça. Importante demais é transportar-se à luz do dia, mas também à noite, e registrar as diferenças de luminosidade e multidão. Cada prédio deve sua merecida atenção e cada jornaleiro sua merecida parada. Não se deve deixar de lado as barcas e as pontes. Circulemos por todos os lugares e deslizemos pelos corrimãos. Às vezes é muito importante correr e correr muito! Com muito sol, mas também com muita chuva. Eu amo a escada rolante, mas não se pode deixar de subir e descer pelas escadas roladas. Os trajetos curtos são uma delícia, e os longos, mais ainda. As bicicletas e as pessoas. Ah, os elevadores! Quantas caronas for preciso. Dormir nas combis e vans. Subir montanhas e serras e conhecer todos os ares. Cruzar passarelas. Mudar de temperatura e de umidade. Sentir a diferença dos ventos. Ah, meus amantes do tempo e do espaço. Como eu amo transportar-me parado! Às vezes, melhor coisa não há que chegar atrasado. Esperar também faz parte. Transportar-se na cama ou na pele e num prato de comida. Num pequeno doce, como Proust, ou pelos ares como o Bis. Viajar como o som e a luz, pelas pipas e raios, e no cheiro do café. Transportar-se na preguiça com seus gatos. Conhecer os transportes é tarefa de todos que vivem e morrem. Os ares para o pulmão, de fora para dentro, o movimento celular, salivas pela boca, a água do copo, a sujeira das mãos, os mosquitos que mordem, as árvores que arranham, a bexiga esvazia. Um mundo todo transportado no instante de uma fotografia. Como eu amo andar na rua, e fazer grandes caminhadas! 

Falstaffianas 3

FALA FALSTAFF! Por minha alma, este rapaz de sangue frio não gosta de mim e ninguém consegue fazê-lo rir; porém, isto não é de espantar, pois ele não bebe vinho! (…) Um bom xerex produz duplo efeito: primeiro, sobe-nos ao cérebro e lá desseca os tolos, estúpidos e acres vapores que o cercam, tornando-o esperto, ágil e inventivo, cheio de concepções ligeiras, ardentes e deleitosas formas, às quais transmitidas à voz, à língua, que lhes dá nascença, tornam-se excelentes ocorrências. A segunda propriedade de vosso excelente xerex é a de esquentar o sangue que, estando antes frio e calmo, deixava o fígado branco e pálido, o que é sinal de pusilanimidade e de covardia; mas o vinho de xerex o esquenta e o faz correr do centro para as extremidades. Ilumina o rosto que, como um farol, dá a todas as forças deste pequeno reino, o homem, o sinal para que se armem e, então, toda a milícia vital, todos os pequenos espíritos internos se reúnem em massa em torno do capitão, o coração, que, dilatado e orgulhoso com este exército, realiza qualquer ato que seja de valor e este valor vem do xerex! De sorte que a ciência das armas nada é sem o vinho, pois é ele que a põe em ação. A instrução não passa de uma mina de ouro guardada por um demônio, até que o vinho a explore, dando-lhe vida e emprego. (…) Seu eu tivesse mil filhos, o primeiro princípio humano que lhes ensinaria seria o de abjurarem toda a bebida ligeira e se dedicarem ao xerex.       

(Segunda parte de Henrique IV, Quarto Ato, Segunda Cena)

Rimante

cheiro no lençol

sono de manhã

grudado caracol

teu corpo me imã

espelho de anzol

teus olhos rolimã

me beijam cachecol

meu corpo feito lã

chovendo arrebol

te faço minha rã

esquento como o sol

marulho de aman

 

Aviso aos Navegantes

Amigos e amigas, náufragos e escafandristas de gaiato: antes do começo não havia nada que não fosse o antes do começo. As coisas só começam quando começam. Com base neste grandioso pensamento, peço com muito carinho a participação de todos com suas pontuadas de plantão. A viagem está só começando. Tudo aqui escrito visa uma futura publicação. De fome não morreremos: algum caldo vai dar!

Bitão

minha vida pulsão

tudo coração

macaco, planta, chão,

céu, vento, pão,

tudo reunião

janela, rua, cão,

água, copo, solidão

tudo mão, tudo mão

         –

piso curtindo o calçadão

almoço e não dispenso o narigão

quando sorrio abro um bocão

meu cigarrim vive no pulmão

tudo abração

         –

no mar sou peixão

na montanha ermitão

         –

na cidade corrimão

sou sempre multidão

         –

tudo irmão

Convocatória para os dois-mundos

Meus amigos e amigas de coração mutante, seguindo nossa caminhada performática, desorientemo-nos no difícil trabalho de ambulante e atemos fogo nesta ignóbil gramática! Que fiquem as praças um disforme rinoceronte, e as terras se dividam em outra matemática. Cairão as correntes das mentes apáticas e dos mares nascerão nossos sonhos delirantes. Vem Maria sapatão, vem o joão sem-braço, vem o príncipe do cangaço, Virgulino meu irmão! Marchem os poetas e os músicos e dancem os palhaços, é carnaval e a coisa aqui é mulher macho. Não há espaço para lirismo que não seja libertação!