A reprodução da barbárie serve à repressão social

Marcelo Neder Cerqueira

Penso que devemos estar atentos para o excesso de reprodução e espetacularização da imagem do adolescente (16 anos) torturado e preso ao poste, no Flamengo, mesmo quando nossa intenção é questionar e denunciar tais atos como absurdos.

A técnica de exposição dos corpos feridos, mortos, desnudados ou torturados em praça pública é coisa antiga, incrustada em nossa formação social, que nos remete à Idade Média. Existem diversos estudos que apontam como os enforcamentos e fogueiras em público exerciam um papel de controle social através da exposição ao medo e horror exemplarmente (e simbolicamente) praticados em sujeitos estigmatizados. Para tanto, é preciso que a imagem construída sobre este sujeito cumpra um lugar simbólico representativo que sustente o apelo imaginário das massas (ideologicamente manipuladas). Na história do Brasil, os pelourinhos exerciam essa função social, com chibatadas, punições, torturas e mutilações de negros escravizados revoltosos em praça pública. Diante disso, não basta colocar uma tarja preta nos olhos ou embaralhar digitalmente a imagem do rosto (garantia democrática do nosso Estatuto da Criança e do Adolescente): no Brasil, para realizar efeito análogo é preciso que o adolescente amarrado ao poste seja exemplarmente identificado com a cidade quilombada.

(O embaralhamento digital do rosto ainda confere um aspecto monstruoso à vítima ao passo que recalca o uso da tarja preta; a “velha” tarja preta explicita uma “proibição”, um “limite”, que quando se trata de crianças e adolescentes, significa o direito de preservação da sua imagem; a substituição (recalque?) da tarja preta na construção do limite/direito para uma imagem alterada digitalmente nos leva a um outro debate, mais sinuoso, sobre os usos e abusos da prática jornalística).

O caráter exemplar das punições e mutilações de hoje cumpre o mesmo papel ideológico do passado, calando fundo no imaginário de nossa formação social. A repetição da antiga prática do desnudadamento para a violência e expiação é apenas mais um sintoma da construção sádica de um corpo destituído de sua condição humana para o usufruto da violência bárbara compartilhada e consentida pela moral medrosa da sociedade. De forma análoga, quem não recorda o caráter exemplar das cabeças enfileiradas e ordenadas para a “bela” foto que pôs fim ao banditismo cangaceiro? Alguém duvida da mensagem que elas passam?

A novidade é que a “praça pública” agora é o mundo virtual. Se ao longo da década de 90 éramos bombardeados com violentas capas de jornais devidamente expostas nas bancas, com corpos sangrando sendo carregados em carrinhos de obra, hoje em dia, pelo face, os próprios usuários se encarregam da reprodução (aparentemente involuntária e espontânea) dessas imagens. A grande mídia lava as mãos e simplesmente republica o que já é notícia e la nave va… Todavia, o procedimento ideológico é o mesmo: produzir terror e manipular o medo na construção da legitimidade – essa forma de cumplicidade cega e acrítica que conduz os corações e mentes a aplaudir (e pedir) a violência (contra si mesmo), aceitando passivamente a ordem social imposta na dinâmica da luta de classes.

Nada é totalmente espontâneo e casual. Se olharmos com atenção a crônica feicibuquiana, há menos de uma semana foi compartilhado (por diversas pessoas) muitas cenas de assalto e pânico no Aterro do Flamengo. Quem publicou isso? A quem serve a reprodução dessas imagens? Ao que parece, hoje, treze homens e um adolescente foram levados para a Delegacia do Catete e responderão em liberdade por formação de quadrilha, tentativa de lesão corporal e corrupção de menores. Onde está a excessiva reprodução das imagens desses possíveis criminosos (todos de classe média e moradores do bairro Flamengo)? Longe de achar que elas devam ser igualmente espetacularizadas, devemos estar atentos para a forma desigual como os direitos são garantidos para uns e negados para outros. Por que? Qual a diferença produzida quando uma matéria de jornal usa a expressão “justiceiros” e não a expressão “quadrilha” ou “bandidos”? Penso que devemos realmente refletir sobre isso, antes que o dedo nervoso (da acusação, da covardia, do medo) se apodere do mouse de nosso computador e repita o mote alucinante do menino de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick: “redrum, redrum, redrum…”

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