Loucos, os fumantes

um cigarro
não posso, não deixam
mesmo em casa, só escondido
do marido saudável
da mulher que se incomoda
da filha esportista de dezessete anos
do moleque que cresceu
e vigia os mais velhos como um cão

tem um tio-avô que morreu de câncer, dizem
na sociedade fitness
todos sofrem de obesidade, anorexia
e morrem de câncer

entre homens e mulheres cosméticos
ninguém pode sofrer e morrer

um cigarro, e uma pausa
do trabalho
para olhar pro nada
de dentro de si, frente ao vazio
e simplesmente restar-se inútil
saboreando o tempo e a morte

só os atores escapam
no cigarro e na ficção
fumam em ambientes fechados
e morrem alegres, entabacados
baforam em teatros e carros
no cinema, na cama, no avião
acendem solenemente um cigarro em ação
e debocham da plateia calada
que aceita o disparate artístico
como um ritual indígena

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