Archive for the 'Sem-categoria' Category

Contemporânea

bombardearam Bagdá
e ninguém se importa mais com isso
com exceção daquele artista plástico
portador do vírus

ele era um ser todo tropical
com mar, floresta e o sol
mas sentia a mesma dor animal
que o Win Wenders

os desenhos foram feitos
assim meio ao acaso
mas diziam da angústia
de contar tudo pra mamãe

um dia chorou
com o playback do Pablo
cantando a música
no Silvio Santos

deixou um monte de coisas
que hoje valem um milhão
em New York
e um apartamento luxuoso
que o herdeiro é um cão

os amigos lembram com carinho
volta e meia, e celebram o vazio
com álcool e cigarros
enquanto olham da janela do vigésimo andar

na esquina os chineses fazem pastel
de carne de verdade
ao lado da drogaria iluminada
com luz fria

os crentes cantam rock
o ônibus não passa
e do outro lado
estão parados
dois carros de polícia

bombardearam Bagdá
ontem de novo
com exceção daquele portador

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Loucos, os fumantes

um cigarro
não posso, não deixam
mesmo em casa, só escondido
do marido saudável
da mulher que se incomoda
da filha esportista de dezessete anos
do moleque que cresceu
e vigia os mais velhos como um cão

tem um tio-avô que morreu de câncer, dizem
na sociedade fitness
todos sofrem de obesidade, anorexia
e morrem de câncer

entre homens e mulheres cosméticos
ninguém pode sofrer e morrer

um cigarro, e uma pausa
do trabalho
para olhar pro nada
de dentro de si, frente ao vazio
e simplesmente restar-se inútil
saboreando o tempo e a morte

só os atores escapam
no cigarro e na ficção
fumam em ambientes fechados
e morrem alegres, entabacados
baforam em teatros e carros
no cinema, na cama, no avião
acendem solenemente um cigarro em ação
e debocham da plateia calada
que aceita o disparate artístico
como um ritual indígena

Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 450 vezes em 2014. Se fosse um bonde, eram precisas 8 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

Amor libriano

amor injusto
e desigual
amar essa mulher
chamada liberdade
sem utopia

e mesmo fantasma
pela cidade
amar sem igual
mulher sem nostalgia

amo e luto
liberdade
contra a injustiça

quando injusto amor
mulher, me ajusto
não há no amor justiça

me arrisco
amar a liberdade
chamada essa mulher
sem ilusão
mas com fantasia

e mesmo fantasma
pela cidade
amar sem juiz
nosso amor desigual
bacante e cheio de magia

Descabido amor

meu amor sem fotografia
corre bicho
pela flama do instante
tal ardor
enquadrado na estante
preso e frio
repousaria

uma imagem sem poesia
impede a morte viver no amante
qual museu de mar ao navegante
que – forte – na água
estranha tanta calmaria

fera , amiga
teu carinho e fotogenia
vivem soltos no verdume coruscante
onde a natureza faz-se restaurante
em cardápio de agora e alegria

vem o amor descampar a pradaria
tamanho tão sem ……..
que nem cabe na Bahia restante
e descabido o amar da fotografia
pelo o céu de Brasília
perto fica de todo horizonte

tempo bailarina
dança teu cardume inconstante
muda de rompante
rumo novo que me guia

[e dessa rebelde sincronia
um jardim de amor consoante
não há dia ou noite exasperante
que pela manhã se seguiria]

mesmo quando espreita a nostalgia
de algum momento distante
vou amar sem fotografia
teu corpo aqui
na idade incontável do sol
onde a palavra – saudade
é um feliz e diabético saci
fumando cachimbo no arrebol

e dessa estranha alegoria
segue añejo, amor meu
ainda mais debutante
quando perto cheiro
a orquídea fumegante
no calor teu
de meio-dia

nem o mais vil deserto impediria
nossa úmida república itinerante
natação que faz aérea ponte
deixar de lado a máquina
e amar adentro
em mar de poesia

23 de julho, ainda

na madrugada fria
de uma rua ordinária
a cidade já dormia

inferno de metralha
estrondo que fazia
surda Candelária

vinte anos passaria
da canalha mercenária
a matar por covardia

a criança involuntária
que seu filho poderia

pulsa a coronária
ao pé da escadaria
a mudança necessária

nem mais um dia
de farda funerária
chega de chacina!

Superquadra sul

minha asa, teu endereço
meu amor sem bengala
constante recomeço

jardim da tua asa
sul, suvaco de América
da rua alfanumérica
onde mora a tua casa

vem junho, julho, mais fevereiro
no calor da tua matutina brasa
nasce a flor da minha asa
o cerrado é mundo inteiro

sonho: brilha o amor verdejeiro
se espalhando pelo chão de terra vermelha
que venha São João!
a subir como um balão fogueteiro
nosso amar multicor fumegante
banhado entre estrelas
no mar de céu grande
de ser tão tuas veredas