Archive Page 2

Perdidos e achados

feriado

ainda melhor que a ruína

um parque de monumentos
sem braço, espada ou cavalo

        lembranças do futuro
        do que não pude
        não deixar de não ser

ainda melhor
melhor que a ruína

        a lapidação
        do braço da Vênus

ou ainda

o beijo entre ruas e bares
conhecendo a boca
aventando caminhos
a serem incompletos

        o cigarro molhado de chuva
        aceso no bico

a cartografia do beijo
espaço sem fim do desconhecido
que incrível acontece
entre duas bocas
sem GPS

                                encontro das faltas
                            lábios e perdas
                        achado e palavras
                    em verso armado
                de concreto armado

viajar para o cerrado
com meu serrado ser

ainda melhor

deixar-se aos escombros
                      dos corpos amantes

rindo da busca
pelo tudo, todo, toldo
ou manto

minto

quero sua manta
de tecido barato americano

minha busca
pelo que não sou
alegria cheia de vida
desperta em mim o desconhecido
que encontro às vezes na esquina

ainda a ruína

se perder na tua superfície
como quem se afoga no rasinho
e de repente levanta rindo
do possível impossível

ainda,

sentir o talho
no corpo vivo
se prender nas tuas pernas
e esquecer o gozo
que não ainda
que não escombro ou ruína

Anúncios

Añejo amor

um ano passou
como três
e ela ficou

tempo veloz
que da espera fez
um fruto sem pressa
que bem madurou

no convés da janela
onde guarda teu canto
o tempo deu vez
ao encontro

instante, tanto, estando

o tempo é um rês
que olha mulheres e homens
como na primeira vez

fumo cobre e cheiro
me leva ao efêmero espanto
do óbvio
nos envolve agora um rum vermelho
envelhecido encanto
a fazer da amiga instantânea
um amor añejo
que chega moroso
para um novo ano

A reprodução da barbárie serve à repressão social

Marcelo Neder Cerqueira

Penso que devemos estar atentos para o excesso de reprodução e espetacularização da imagem do adolescente (16 anos) torturado e preso ao poste, no Flamengo, mesmo quando nossa intenção é questionar e denunciar tais atos como absurdos.

A técnica de exposição dos corpos feridos, mortos, desnudados ou torturados em praça pública é coisa antiga, incrustada em nossa formação social, que nos remete à Idade Média. Existem diversos estudos que apontam como os enforcamentos e fogueiras em público exerciam um papel de controle social através da exposição ao medo e horror exemplarmente (e simbolicamente) praticados em sujeitos estigmatizados. Para tanto, é preciso que a imagem construída sobre este sujeito cumpra um lugar simbólico representativo que sustente o apelo imaginário das massas (ideologicamente manipuladas). Na história do Brasil, os pelourinhos exerciam essa função social, com chibatadas, punições, torturas e mutilações de negros escravizados revoltosos em praça pública. Diante disso, não basta colocar uma tarja preta nos olhos ou embaralhar digitalmente a imagem do rosto (garantia democrática do nosso Estatuto da Criança e do Adolescente): no Brasil, para realizar efeito análogo é preciso que o adolescente amarrado ao poste seja exemplarmente identificado com a cidade quilombada.

(O embaralhamento digital do rosto ainda confere um aspecto monstruoso à vítima ao passo que recalca o uso da tarja preta; a “velha” tarja preta explicita uma “proibição”, um “limite”, que quando se trata de crianças e adolescentes, significa o direito de preservação da sua imagem; a substituição (recalque?) da tarja preta na construção do limite/direito para uma imagem alterada digitalmente nos leva a um outro debate, mais sinuoso, sobre os usos e abusos da prática jornalística).

O caráter exemplar das punições e mutilações de hoje cumpre o mesmo papel ideológico do passado, calando fundo no imaginário de nossa formação social. A repetição da antiga prática do desnudadamento para a violência e expiação é apenas mais um sintoma da construção sádica de um corpo destituído de sua condição humana para o usufruto da violência bárbara compartilhada e consentida pela moral medrosa da sociedade. De forma análoga, quem não recorda o caráter exemplar das cabeças enfileiradas e ordenadas para a “bela” foto que pôs fim ao banditismo cangaceiro? Alguém duvida da mensagem que elas passam?

A novidade é que a “praça pública” agora é o mundo virtual. Se ao longo da década de 90 éramos bombardeados com violentas capas de jornais devidamente expostas nas bancas, com corpos sangrando sendo carregados em carrinhos de obra, hoje em dia, pelo face, os próprios usuários se encarregam da reprodução (aparentemente involuntária e espontânea) dessas imagens. A grande mídia lava as mãos e simplesmente republica o que já é notícia e la nave va… Todavia, o procedimento ideológico é o mesmo: produzir terror e manipular o medo na construção da legitimidade – essa forma de cumplicidade cega e acrítica que conduz os corações e mentes a aplaudir (e pedir) a violência (contra si mesmo), aceitando passivamente a ordem social imposta na dinâmica da luta de classes.

Nada é totalmente espontâneo e casual. Se olharmos com atenção a crônica feicibuquiana, há menos de uma semana foi compartilhado (por diversas pessoas) muitas cenas de assalto e pânico no Aterro do Flamengo. Quem publicou isso? A quem serve a reprodução dessas imagens? Ao que parece, hoje, treze homens e um adolescente foram levados para a Delegacia do Catete e responderão em liberdade por formação de quadrilha, tentativa de lesão corporal e corrupção de menores. Onde está a excessiva reprodução das imagens desses possíveis criminosos (todos de classe média e moradores do bairro Flamengo)? Longe de achar que elas devam ser igualmente espetacularizadas, devemos estar atentos para a forma desigual como os direitos são garantidos para uns e negados para outros. Por que? Qual a diferença produzida quando uma matéria de jornal usa a expressão “justiceiros” e não a expressão “quadrilha” ou “bandidos”? Penso que devemos realmente refletir sobre isso, antes que o dedo nervoso (da acusação, da covardia, do medo) se apodere do mouse de nosso computador e repita o mote alucinante do menino de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick: “redrum, redrum, redrum…”

À vera

 

dura, a verdade

é uma verdura

que estraga num par de dias

 

prima, a verdade

é muito próxima

só conhece a primavera

 

fera, a verdade

é uma pantera

que arde e grita

com pernas fortes

 

fura, a verdade

é uma pintura

com um buraco no meio

Artista da fome

bem que tentei

mas não consegui

sou um fora-da-lei

John Wayne guarani

 

herói do avesso

me perco por aí

por dentro, desejo

enfrento, faquir

 

como resistir

a esse riso que rima gigante

a essas pernas fortes

de animal galante

vontade da mandíbula

que me quebra os dentes

 

mundo mudou quando conheci

essa menina fosforescente

amiga como a aguardente

mulher que faz o herói ruir

Caia tarde

cai a tarde

como um anjo

torto de desejo

querendo ser humano

arde a noite e do céu

seu despejo mundano

 

moribundo, marimbondo

refém do infinito

pega a tesourinha do banheiro

corta as asas

faz do sangue teu arbítrio

anoitece, deita as penas

e caminha as pernas

cego, vivo

 

reclama a noite

e a carne em chama arde

vagabundo, vagalume

cintila desalado

entregue à lama

livre, sem alarde

deita ao chão

com os bichos da mata

na alegria universal da morte

mira a tarde azul e as estrelas

onde mora o corte

 

caia tarde

este tempo tão efêmero

namorando o infinito

encara o Criador

com teu cânhamo terreno

leva a dor, louva-deus

a dormir em desabrigo

Raje

 

rajada cidade

ferida de sonho

concreto aberto

 

palavra que corta

afunda a fenda

feminino

 

toma o trem

navalha e trilho

 

jardim de flores armadas

em movimento

cravando umbigo